PROFESSOR MATA

Nome completo: António da Silva de Freitas Mata
Nascimento: 08 de Maio 1942 Guimarães, Portugal
Profissão: Professor de Ensino Básico (Reformado)

Íamos falar de moinhos, esses moinhos do Selho que estão no ADN do professor Mata. O milho, as mós, a água marcaram a vida deste homem com tantas histórias para contar, tanto do que há de nós, da identidade vimaranense, com origens em Creixomil. Fala muito, com a propriedade de quem estuda, de quem pergunta, de quem se lembra. De mim exigiu um esforço grande para ouvir e tentar absorver o tanto que tinha para me contar. Fez-me suspirar por uma memória eidética, para poder partilhar todo o conhecimento que me transmitia.

Mostra-me a casa em pedra onde nasceu, quase no Lugar do Jogo, outrora em terra batida, em que as crianças enchiam os dias de peão, berlindes e picolé. Falar de Creixomil é falar de cutelarias. Apesar de esta indústria ter morrido, há resquícios dela por toda a freguesia. Como, por exemplo, em portões de moradias, que de fábricas se fizeram habitação. Descemos para o Lugar das Lajes, hoje tristemente cobertas por um cimento menos nocivo para os amortecedores dos carros. Ali encontramos a casa de família, provavelmente de 1726, onde viveram bisavô, avô e tia, que morreu aos 92 anos, e lhe passou testemunhos que preserva.

Recorda com carinho os tempos em que a farinha que os moínhos produziam se metia pelas telhas vãs e cobriam de branco a paisagem. O mesmo branco dos ‘cobertores do Papa’ das senhoras da cidade que as lavadeiras do Selho colocavam a corar nas margens do rio. Esse rio que um dia foi límpido para banhos de verão e passeios de barco. “Talvez por ter família no Brasil, quando subíamos o rio até Fermentões dizíamos que íamos até ao Brasil”. O Selho já foi cheio de trutas e enguias e era bem essencial para agricultores, cutileiros e moleiros.

Quando o rio começou a correr poluído pelas cores do tinto com que as fábricas trabalhavam, uma parte daquele lugar morreu. O rasto de destruição é visível nas margens cheias de detritos e tomadas pelas silvas, pelo lodo que se acumula no leito, pelas heras que consomem as ruínas dos moinhos. Hoje o verde da capital que se anuncia não é o verde da esperança do Professor Mata. Aos 74 anos, não acredita que o ciclo se vá fechar: de um rio cheio de natureza, passou para uma linha de água feia e fétida, para ser um lugar abandonado que só deixou de ter elevados níveis de poluição porque a indústria morreu. E não gostava de voltar a tomar banho no Selho, brincar aqui com os seus netos? Que belo cenário. “Mas não vai acontecer”, vaticina.

O Professor Mata esteve 40 anos ao serviço da Escola Alto da Bandeira, com vários, chamemos-lhes assim, “part-times”. Foi responsável pelo acolhimento dos atletas jovens do Vitória e durante 11 anos esteve envolvido na Comissão de Proteção de Crianças e Menores de Guimarães. No dia em que decidiram fazer-lhe uma homenagem na sua escola de sempre, foi ao engano num conluio planeado pela esposa, pelos colegas e pelos alunos. Ali ouviu-se um poema da Professora Maria da Conceição Campos que dele disse:

“Eis o pai, o amigo, o professor,
Que sabia de cor canções de moínhos,
Caminhos da farinha até ao Pão!…
Seu braço de trabalho, alma de amor,
Foram lições de guerra e de carinho…”

Por: Catarina Castro Abreu

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