QUEM É QUE GOSTA DA GREVE DOS OUTROS? NINGUÉM.

por ÂNGELA OLIVEIRA
Advogada

Ninguém gosta de ter que pagar ATL para o filho em dia de greve dos professores; ou ficar no aeroporto horas à espera para saber se tem voo ou não em dia de greve do pessoal da Ryanair; perder uma manhã para ir à consulta no hospital que se espera há 5 meses e ver a consulta adiada pela greve dos médicos ou enfermeiros, … A greve dos outros é uma chatice, aborrece, atrapalha a nossa vida. E quando a nossa vida é atrapalhada é difícil manter o sentido social de que TODOS merecem condições de trabalho melhor.

Isto é tanto assim, que basta um pequeno indício de conspiração que logo nos agarramos a ele como bóia de salvação da nossa consciência pesada. Qualquer rumor serve para justificarmos a raiva que sentimos naquele momento em que fomos renovar o cartão de cidadão mas os funcionários públicos tinham aderido à greve, mas depois aceitamos, afinal é um Direito.

O que tem de diferente a greve dos motoristas de matérias perigosas e de mercadorias? Afectam toda a gente. É uma greve democrática! Até afecta membros do Governo e o próprio Governo. Afecta a direita e a esquerda. Ricos e pobres, pessoas em férias, a trabalhar… Os motoristas caprichosamente aderentes de um sindicato independente (jamais a CGTP deixaria de criar alvoroço se estivesse em causa um sindicato seu), poucos ou nenhuns apoios de peso conseguiram ter.

Rapidamente alguém tratou de desacreditar a figura de Pedro Pardal Henriques (se resultou com a Bastonária dos Enfermeiros repita-se a dose), os partidos políticos de esquerda, historicamente proto defensores do Direito á Greve como Direito Fundamental dos trabalhadores, veem-se apertados pelas legislativas junto às cordas do PS (já vi o Bloco de Esquerda a fazer mais barulho junto a uma empresa em defesa de uma trabalhadora vítima de assédio). Afinal, para compor este ramo de lírios, o porta voz da ANTRAM, André Matias de Almeida, é irmão do adjunto do secretário de Estado da Economia e militante do PS, diz-se.

Como dizia há dias um amigo meu, esta procissão da vergonha alheia às bombas de gasolina, dos serviços mínimos, das restriçõezinhas, do “decretado cenário de crise”, do paternalismo, da requisição civil e papelinhos que tal só parecem inéditos porque a House of Cards e o Borgen nunca passaram nos telejornais. De resto, já foi tudo visto com melhor cast, melhor argumento e melhor ost.

No final, o que mais me choca é que toda a gente se incomoda com a “ greve dos combustíveis” mas não com o preço dos mesmos, porque a greve mais cedo ou mais tarde ficará resolvida, mas nós continuaremos a pagar – e bem- para encher o depósito.

Números redondos, em 20 euros de gasolina 12 são impostos, os restantes 8 são para as empresas pagarem a matéria-prima, o camião, o salário do motorista,… Os motoristas dizem que recebem mal e que a maioria não é ordenado e não contará para a reforma. Fazem greve, mas não são grevistas, são criminosos. O Governo decreta serviços mínimos em máximos e ameaça de prisão os grevistas… tudo menos baixar a percentagem de impostos nos combustíveis, que isso significaria era menos dinheiro para os sobrinhos, filhos e irmãos, para as golas inflamáveis ou para a progressão na carreira dos padeiros socialistas…

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