Registos deste verão

Por Mariana Silva, Deputada na Assembleia da República (Os Verdes)

O aparecimento de um vírus, que em pouco tempo mudou o presente e de todos, trazia consigo uma aura de mudança.

Uns diziam que estávamos no “mesmo barco” porque a doença não escolhia entre pobres e ricos e que todos nós tínhamos que nos proteger e fazer a nossa parte para que o vírus não se propagasse de forma assustadora.

No entanto, o tempo que tudo cura e que revela a realidade escondida atrás de bonitos discursos e de belas parangonas como “Vamos ficar todos bem!”, traz consigo a cada dia que passa mais problemas e preocupações.

Os trabalhadores que continuam em lay-off e que já perderam em três meses o valor de um salário, as empresas que, estando em lay-off, continuam a trabalhar, as empresas de transportes coletivos que já deveriam estar no terreno a responder às necessidades de mobilidade das populações e a oferecer mais horários para que se cumpram com as medidas de distanciamento físico.

O que é necessário é garantir a proteção sanitária, nas habitações, nos transportes e nos locais de trabalho. Fazer a pedagogia da prevenção para que todos possamos ser agentes de saúde pública. Mas essencialmente assegurar as condições necessárias para retomar as atividades económicas, sociais, culturais, desportivas e de lazer, que são tão importantes para a vida em comunidade.

Em tempo de férias, de época balnear, não podemos esquecer os milhares de trabalhadores que viram as suas férias alteradas, para março ou abril, muitos deles de forma forçada, e que agora têm poucos ou nenhuns dias para gozar e descansar.

E falando em época de férias de verão, vivemos um cenário de quase absoluta ausência de turismo estrangeiro o que obriga a que olhemos com outros olhos para o turismo nacional, mas para isso é necessário criar as condições de lazer e de usufruto da natureza em segurança nas nossas terras, designadamente nas nossas linhas de água.

Entretanto, apesar dos avisos para que a situação excecional que estamos a viver não de traduzisse numa desculpa para retrocedermos na defesa do ambiente, as descargas no rio Ave em maio, as descargas no rio Vizela recentemente, indicam-nos que afinal a pandemia pouco trouxe de mudança de comportamentos e continuamos apenas a ver os municípios e o ministério do ambiente a anunciarem grandes e promissores planos de despoluição das nossas linhas de água.

A proteção da biodiversidade, da água e da natureza no seu todo, não passa de promessas e de discursos bonitos, mas na prática todos os argumentos são válidos para os atropelos ambientais.

Como falamos de Verão, não podia deixar de me referir às Festas Gualterianas e ao facto de o ano 2020 ficar marcado pela ausência da maior festa de verão de Guimarães. Porque o vírus não desapareceu, todas as medidas de seguranças são necessárias e o regresso à normalidade tem que ser feito de forma cautelosa e ponderada, as festas como sempre as conhecemos não terão lugar.

A aposta foi na decoração da cidade e dos monumentos mais emblemáticos, e neste caso poderíamos questionar a intenção, o objetivo e até o gosto. Mas “gostos não se discutem” e por isso, nunca saberemos ao certo para que serve ornamentar a torre de menagem do Castelo, por exemplo, com a bandeira de Portugal num ecrã de leds, se bem acima está a bandeira a esvoaçar. Não se entende a intenção, mas reconhece-se a despesa sem sentido.

Quanto à vida que a cidade vai perder, penso que estaremos todos de acordo que saberão a pouco as iniciativas que estão programadas e que em nome do COVID se realizarão.

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