SÃOZINHA

Nome completo:Maria da Conceição de Oliveira Rodrigues da Silva
Nascimento:05 de agosto 1951 Guimarães, Portugal
Profissão: Reformada

Há pessoas que são as rodas dentadas que fazem funcionar os nossos dias. Transformam pequenas partes do desapercebido quotidiano, são pessoas insuspeitas, a quem não atentamos por mais constante que seja a sua presença. É talvez assim com a Sãozinha, que trabalhou mais de 40 anos atrás do balcão de um dos supermercados mais frequentados no centro de Guimarães.

A Sãozinha do Bolama, do lado de lá do balcão, viu famílias a nascer, famílias a crescer, famílias a ficarem mais pequenas. Do lado de lá do balcão, assistiu ao ciclo natural da vida. Falo por experiência própria: era a Sãozinha que me safava quando esquecia – sempre de cabeça no ar, a Catarina – dos recados que a minha mãe de mandava fazer ao Bolama da rua Gil Vicente.

Durante esses mais de 40 anos foi a responsável pelo bacalhau da consoada de muitas famílias vimaranenses. No início da carreira, era apenas no Natal que as pessoas acorriam a comprar a iguaria, a 15 escudos e 80 centavos o quilo. Depois passou a fazer parte da diária do português. Assistiu aos tempos áureos, em que os clientes não olhavam a meios para levarem o bacalhau alto, teso, que mostrasse um espetro de cores à contraluz. Nos últimos cinco anos, viu essas mesmas pessoas, habituadas a levar os jumbos (bacalhau topo de gama da Islândia, o preferido de Sãozinha), a pedirem-lhe para encontrar uma solução mais económica, num desafio de ginástica orçamental.

O discurso é entendido na matéria. Explica as categorias de bacalhau, as suas proveniências mais saborosas, a relação qualidade-preço. Que partes são boas para que receitas. Além do bacalhau, do peixe congelado e da charcutaria, Sãozinha assumiu as lides do peixe fresco quando o Bolama abriu uma superfície maior na rua Paio Galvão. Era ela a resposta para a falta de ideias para a ementa do jantar: sugeria o peixe, a forma de cozinhar, os acompanhamentos. “Abra a truta, coloque bacon, orégãos e uma areiinha de sal. Leve ao forno. Faça um puré para acompanhar”. No dia seguinte, agradeciam-lhe os louros conseguidos pelo brilharete culinário da noite anterior.

Os problemas nos pés, agravados pelo uso de galochas na peixaria do supermercado, impedem-na de trabalhar. Foram seis operações em três anos. Em setembro, com o ok do médico, e aos 64 anos, redescobriu uma paixão que lhe vem de miúda. O desporto. Jogava voleibol nos idos anos 60. Em 2015, faz uma, duas aulas na piscina ou no ginásio por dia. É de entusiasmo que se faz a nova ocupação. De manhã, em dias de inverno, a cama quente não a tenta? Não gostava que as horas se demorassem mais ao acordar do que ao deitar? Responde-me que não, que nem pensar. Se não tivesse os afazeres domésticos que lhe preenchem as tardes, bem que passava lá o dia todo. Mas não dá. Há roupa para passar, camas para fazer, comida para cozinhar.

A cozinha, essa, é quartel-general desta mulher com ar matriarcal. Encaixa tão bem no cliché: gosta de ter espaço e fazer as coisas à maneira dela. Expulsa quem quer ajudar que as ajudas atrapalham. O raciocínio e os gestos exigem-se ágeis. Sãozinha, doce Sãozinha, mãe de dois filhos, é também avó. Aí também não foge do estereótipo: é vê-la a sacar do telemóvel – tecnologia que veio substituir as carteiras onde os retratos de netos e filhos batalhavam por um espaço – para mostrar as fotografias das netas com 12 e 14 anos. Já lhe adivinhamos a frase “Não é por serem minhas netas mas são muito lindas, não são?”.

Por: Catarina Castro Abreu

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