TOMORROWLAND

Por Paulo Novais

Tomorrowland, a terra do amanhã (numa tradução livre), é uma expressão que sempre me fascinou. Reportando-me para um imaginário de uma terra distante e futurista, um pouco na senda das aventuras de Peter Pan na Terra do Nunca. Tomorrowland é, também, hoje em dia associado a um festival de música eletrónica muito popular, para além de outras utilizações mais ou menos criativas, é, ainda, uma cadeia de lojas de roupa no Japão.

Sempre polvilhei o meu imaginário sobre o futuro com megacidades, ao estilo e tamanho de “Blade Runner” mas com uma envolvência de luz, ordem e onde imperaria o respeito e preservação do meio ambiente. O presente tem-me dado sinais contraditórios, por um lado existe hoje uma preocupação generalizada e global de (re)construir e (re)organizar as cidades com uma forte incidência em preocupações de sustentabilidade ambiental, mas por outro lado uma negação (contraditória) das evidências relativamente às alterações climáticas por parte de alguns decisores mundiais. O nosso mundo sempre foi feito de avanços e recuos.

Numa tarde de um domingo de janeiro, sentei-me numa das poucas esplanadas que encontrei em Yokohama junto à baía, o letreiro de uma loja da Tomorrowland destacava-se. De facto de pouco interesse terá esta localização porque nem sequer entrei na loja, limitei-me a observar e a tomar um café.

O dia estava solarengo, convidando ao relaxe e ao passeio. A esplanada dava para uma grande praça e de frente para mim estava o Yokohama Museum of Art (um museu de arte moderna). A praça tinha traços de uma arquitetura futurista, grande e espaçosa mas minimalista no desenho, num país onde o espaço é ouro. Via pessoas a passear num frenético vai e vêm típico das sociedades asiáticas. Tudo muito ordenado, tudo muito civilizado, como também é, por aqui, muito normal. Há uma certa ordem natural no ar que nos contamina positivamente, que nos faz respeitar a individualidade do outro, que nos faz respeitar o outro.

Continuei a tomar o meu café, até porque era o primeiro em muitos dias, que eu bebia um líquido parecido com um café, mas algo não batia certo! Alguma coisa me intrigava na paisagem que observava. Havia ali algo que faltava, mesmo para mim que gosto destes ambientes organizados e calmos. Não faltavam pessoas aos grupos, sozinhas, aos “molhos”. Havia algum barulho, furto da movimentação das pessoas, do comércio, da circulação interminável de automóveis ao longe e dos ruídos da baía. No entanto, alguma coisa falhava para que o quadro estivesse perfeito e pudesse ser pintado por um dos grandes mestres que expõe no museu em frente.

Não era a diferença na interação pública entre as pessoas, que por aqui é mais comedida, mais reservada e mais formal. Até porque ao fim de alguns dias já nos acostumamos a essa forma de estar e de ser. Não, era outra coisa! Mas o quê?

Havia movimento, havia barulho, havia pessoas novas e velhas… Espera, não há crianças aqui! O cenário poderia ser perfeito mas praticamente não se viam crianças, faltava o vibrar das crianças! Faltava o choro, a traquinice, a desobediência, o riso, o olhar da curiosidade infantil.

Moral da estória:

O Japão é uma sociedade avançada com altos padrões de vida, de democracia e de uso de tecnologias, mas com um problema demográfico grave. Com um acelerado envelhecimento da população e uma acentuada diminuição da natalidade.

Não sei se o futuro passa por aqui. Sei que se não invertemos esta tendência, que também se verifica na Europa e em Portugal, este futuro não será o Futuro que tanto desejamos e sonhamos.

Esperemos que este seja um “recuo” temporário e que tenhamos a sensatez e sabedoria de arrepiar caminho, porque uma sociedade sem renovação geracional é uma sociedade sem futuro.

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