TURISMO E PUDOR

por FRANCISCO TEIXEIRA

O turismo é uma das mais poderosas indústrias do nosso tempo. Quer no que diz respeito ao volume de recursos financeiros e económicos envolvidos, quer no que diz respeito à capacidade de dar a ver e cruzar horizontes de vida e, nesse sentido, promover a paz. Portugal, muito em particular, tem vindo a ver crescer progressivamente o seu PIB turístico e, como consequência e causa disso, a projetar-se no mundo de modo crescente.

Mas o turismo também carrega consigo riscos elevados. Desde logo o da degradação ambiental. O turista consome mais e gasta mais. De tudo. Uma das razões pelas quais o consumo turístico é exponencial tem a ver com o generalizado descomprometimento do turista para com o local que visita. Maioritariamente, o turista é um passante e estabelece uma relação superficial com os lugares que visita. Mesmo que os locais em causa sejam icónicos e globais, mesmo que fazendo parte da memória humana universal, a natureza do turista é, por definição, evanescente e explosiva. Cada momento é para ser sorvido todo de uma vez, rapidamente e em força.

Pelo contrário, cada sítio é, para cada um de nós, quando não estamos turistas, quando estamos em casa, mais que nós próprios. Nesse caso cada sítio é ele mesmo e as experiências, reais ou virtuais, que tivemos dele, o que nos obriga, a cada momento de vida, a um certo pudor quando o tocamos ou, simplesmente, quando o olhamos, quando o usamos. Ora, para o turista, em regra, a experiência de um local ou é de cada vez uma experiência nova ou o recauchutar de uma experiência virtual. Tirando as experiências de exceção, o turista é incapaz do pudor e, pelo contrário, tudo é exaltação, espanto, pasmo e fruição intensíssima. Esse momento de alegria é ótimo para o turista. Mas não é líquido que esse fogo seja sempre tépido e doce para o não turista, para o habitante. Pelo contrário. O fogo turístico queima vezes de mais as casas próprias, os caminhos pessoais e as experiências íntimas, tornando-se vezes de mais ameaça para a experiência dessa casa e desse sítio que não é só passagem mas também habitação.

A questão é a de saber se o turismo é, então, conciliável com a habitação própria e a cidade onde vivo. Tem que ser, claro. Cada casa nunca é só ela mesma mas também os caminhos que a ligam a casas distantes, por mais distantes que sejam. Acontece que, é sabido, nas casas dos outros devemos ser discretos, tocados pelo pudor, pela distância respeitosa e pela compreensão de que as outras casas também têm pessoas lá dentro.

Em certo sentido, o que me parece útil é uma educação para o pudor turístico. Uma pedagogia do cuidado com as casas dos outros, as suas ruas, o seu silêncio, as suas histórias inimagináveis, as suas perdas, saudades e melancolias.

Por isso é que eu adoro a Oliveira logo pela manhãzinha. De verão ou de inverno. Nesse momento há um pudor inteiro dos lavadores da praça, um silêncio cheio de reflexos e sombras que me permitem lembrar anos e anos de olhares que são só meus, sem as exuberâncias alegres das paixões de verão e dos espantos religiosos. Talvez fosse de lá colocar, algures, umas placas para os turistas dizendo “cuidado, aqui vivem pessoas”. Enquanto ainda lá vivem pessoas.

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