Um ponto de partida para uma saudável discussão

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

A forma como nascem, crescem e morrem as polémicas em tempos que aliaram pandemia a redes sociais dava um belo caso de estudo.

O processo é este: alguém diz alguma coisa polémica. Isso de imediato incendeia as redes sociais, com posts e comentários desabridos a atacar ou a defender quem o disse. Das redes sociais a coisa alastra para os jornais, televisões e outros media. Durante um ou dois dias, a questão parece ser o alfa e ómega da nossa vida em sociedade.

Ato contínuo, a polémica tão rapidamente cresce como definha e morre. Seja porque ali ao lado nasceu outra, seja porque pura e simplesmente já ninguém quer saber do assunto.

Uma dessas polémicas recentes visou o padrão dos descobrimentos. E porquê? Porque um deputado escreveu um artigo de opinião defendendo que o mesmo fosse retirado.

Ora, há vários pontos prévios de partida para esta discussão em que talvez fosse preciso assentar. Um primeiro tem a ver com a justa proporção das coisas: estamos a falar da opinião de uma pessoa. Sim, de uma pessoa. Sim, essa pessoa é deputado, mas aquilo que escreveu nem sequer é uma proposta, mas sim uma mera opinião sua escrita en passant num artigo de jornal. Justifica-se que a propósito dessa mera opinião se faça tanto alarido? Justifica-se que se escrevam resmas de artigos de opinião inflamados e se gastem horas de debates televisivos? Parece que sim, tal o estado tal de híper reatividade em que vivemos.

Um outro ponto que parece esquecido é este: da mesma maneira que uma comunidade decide coletivamente, através dos seus representantes, erigir uma estátua, pode, pelo mesmíssimo processo, decidir retirá-la. Em si mesmo, não há nada de errado nisto. Nem com uma coisa, nem com a outra. O que é intolerável é quando alguns, à revelia da estrutura representativa da sociedade em que se inserem, decidam motu propriu derrubar uma estátua. Isso (que já aconteceu em alguns países) é que é completamente antidemocrático.

Excluindo isso, o resto é a democracia a funcionar e se o sentimento maioritário da população manifestado através dos seus representantes for o de retirar uma estátua, mudar um nome de rua ou demolir um monumento, pois que seja. Como disse, é a mesma legitimidade de onde nasceu a colocação da estátua, a escolha do nome da rua e a construção daquele monumento.

O terceiro ponto tem a ver com a forma como nos relacionamos com a nossa história. Para que a relação dos cidadãos com a história do seu país seja saudável, antes de mais é importante que a todos seja ensinada a verdade toda. Falo por mim. A história de Portugal que aprendi era ainda extremamente romanceada. Uma história feita de meias verdades, de exaltação da portugalidade e da omissão do que menos nos orgulharia. Foram precisos anos para perceber que a história cor de rosa que me tinha sido ensinada tinha também muitos espinhos.

Feito isto, na posse da informação toda, é à tal comunidade que cabe decidir. Decidir o que quer celebrar e o que entende já não fazer sentido que se assinale. Sem dramas. Sem histeria mediática para alimentar o feed do facebook ou do twitter. Com a profundidade que a situação reclamar. Ou sem nada disto se tudo não passar de uma mão cheia de nada. Ou então da simples opinião de uma pessoa.

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