UM RETRATO DO TURISMO EM GUIMARÃES

O turismo tem sido uma das tábuas de salvação nacional. O crescimento do setor tem puxado pela economia e contribuído para a redução do desemprego. Em Guimarães esse acréscimo de turismo salta à vista de quem anda pela rua. Boa notícia para Guimarães é o fato de o turismo que mais cresce não ser o de “sol e mar”, mas sim o turismo de época baixa, onde se incluem o turismo de património e o as escapadelas de fim de semana para turismo de cidade

É um facto indesmentível que o crescimento do turismo tem sido constante, em Portugal, no Norte e também em Guimarães. Basta percorrer as ruas de qualquer cidade, não só do Porto e Lisboa, onde o fenómeno começa a atingir proporções que em alguns casos até levantam novos problemas, para verificar o crescimento do turismo. A simples observação pelas ruas de gente com malas e mochilas, com mapas, guias turísticos e telefones na mão, de máquina fotográfica pendurada ao pescoço, e a audição de idiomas variados nas esplanadas e restaurantes, bastariam para chegarmos a algumas conclusões.

Já se falava há muito do aumento do turismo no Porto e em Lisboa e o fenómeno na cidade berço ainda não era tão notório. José Oliveira, motorista de táxi, confirma que, pela sua experiência, “a grade explosão na procura foi nos últimos dois anos”. O colega João Leite alinha pela mesma ideia: “embora o turismo não tenha parado de aumentar desde a Capital Europeia da Cultura (2012), nos últimos dois anos talvez tenha duplicado”.

Os números suportam a impressão dos dois motoristas. Em 2013, visitaram Guimarães 14.615 turistas espanhóis, em 2015, o número subiu para 24.731 e, em 2017, os visitantes do país vizinho foram 32.584. Em quatro anos houve um aumento de 17.969, e nos últimos dois o aumento foi de quase 8 mil visitantes. Os espanhóis são quem mais visita Guimarães de longe, em segundo lugar, desde 2013, surgem os Franceses, com uma diferença de quase 20 mil visitantes, e os portugueses aparecem em terceiro lugar, com 7.625 visitantes, menos 25 mil visitas que os espanhóis.

Apesar destes números, não é o espanhol a língua que mais se ouve na estação de caminhos de ferro de Guimarães. Segundo os motoristas de táxi quem mais os procura ali são os brasileiros. “Os espanhóis provavelmente chegam mais em carro próprio”, é o diagnóstico de João Leite. A corrida mais solicitada aos motoristas de táxi, pelos visitantes que chegam a Guimarães de comboio, é a ida ao Castelo. A importância do monumento é tal que muitos dos turistas vão lá diretos, sem chegarem a passar pelo centro da cidade.

Fonte:CMG

Janaína e Sidney são brasileiros de São Paulo, estão pela primeira vez em Portugal. Vão ficar quinze dias para conhecer aquela que é a terra dos avós dela, mas onde já não lhe resta nenhum familiar. As férias vão ser divididas entre uma semana no Porto e outra em Lisboa. A partir das duas maiores cidades do país pretendem fazer pequenas escapadelas de um dia para conhecer outros lugares. Sintra e Setúbal a partir da capital e Guimarães e o Alto Douro a partir do Porto.

Decidiram vir de comboio quando verificaram que a cidade é pequena e pode ser percorrida a pé. “Dessa forma também conhecemos as gentes”, afirma Janaína. No dia seguinte vão conhecer o Alto Douro vinhateiro, planeiam almoçar na Régua, “e aí vamos alugar uma viatura”, diz Sidney.

De Guimarães dizem maravilhas, embora reconheçam que para quem chega de comboio e não fala português possa ser difícil encontrar algo tão fácil como o caminho para o centro. “Tivemos que perguntar para o motorista e depois ensinar para uns meninos franceses que também estavam perdidos”, queixa-se Janaína já no centro da cidade, “e tão fácil”, acrescenta apontando para a avenida Afonso Henriques nas suas costas.

De facto é frequente encontrar turistas com ar perdido, de GPS na mão, ou a tentarem situar-se no mapa, questionando os passantes, na avenida D. João IV, junto à estação dos comboios. Maren e Mina são norueguesas e concordam que é espantoso que numa cidade com “tantas e tão bonitas atrações turísticas não haja um ponto de informação para quem chega de comboio”. São estudantes e estão a fazer um programa de intercâmbio no Porto, aproveitaram algum tempo livre para conhecer Guimarães. “Estamos maravilhadas com a cidade em geral, adoramos os monumentos, mas sobretudo o centro tão bem preservado”, afirma Maren, sentada na praça da Oliveira a beber um fino para hidratar o corpo cansado de percorrer a cidade de uma ponta a outra a pé.

Segundo dados da Direção Regional de Cultura do Norte, o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, nos cinco anos registou mais de 1,5 Milhões de entradas. O Paço dos Duques e o Museu de Alberto Sampaio cresceram, em 2017, 14% comparativamente a 2016. O Paço dos Duques e o Castelo de Guimarães, em 2017, tiveram 377.199 e 320.753 visitantes respectivamente. Muito acima do terceiro local mais visitado, o Museu Alberto Sampaio com 101.874.

Fonte: Pordata

As norueguesas e o casal brasileiro, como muitos dos turistas que visitam Guimarães, ficam pouco tempo. Nestes casos nem sequer vão passar uma noite. Em 2012 atingiu-se a taxa recorde de ocupação de quartos, com 64,4%, no ano seguinte houve uma queda para 50,8%, mas entretanto os números têm vindo a subir, em 2017 esta taxa foi de 59,2%. Tendo em conta que a oferta de quartos aumentou, estes números exprimem uma subida real do número de dormidas. Ainda assim, os hoteleiros queixam-se que as estadias são curtas. Quem vem fica uma noite duas no máximo. Números do Instituto do Planeamento do Turismo dizem que o turista que chega ao Norte de Portugal dorme principalmente no Porto (45,2%), Gaia (19,6%) ou Maia (13,1%), Braga é a cidade que aparece após as cidades do Grande Porto, e só depois é que aparecem Guimarães, Póvoa de Varzim, Viana do Castelo, Chaves e Espinho.

Fonte: Pordata

No momento em que Maren e Mina “matam” o fino e voltam a por a mochila às costas, passa um enorme grupo de turistas alemães, com o guia na frente. Vêm do Castelo e do Paço dos Duques, passam pelo centro histórico, com direito a uma pequena paragem na praça da Oliveira e seguem. O guia explica que vêm do Porto e ainda voltam, hoje à invicta, com passagem pela Sé de Braga. E a Plataforma da Artes, a Casa da Memória, o Jardins do Vila Flor? “Isso é para outro tipo de turistas, para gente que vem com mais tempo, nós temos o tempo limitado temos que mostrara o essencial”, explica o guia.

Emma e Noah são franceses, e são desses turistas com mais tempo e com mais autonomia. Chegaram por Vigo onde alugaram carro e começaram a descer a costa: Caminha, Viana, Póvoa do Varzim. Viraram para o interior para conhecer Braga e Guimarães. Gastaram um dia em Braga, onde ficaram com a ideia que o turismo se reduzia às igrejas. Começaram a visita a Guimarães pela Citânia de Briteiros, onde adquiriram o Guimarães Pass, e pretendem ficar mais um dia ou dois. Confessam que a variedade da oferta os encantou. Andam pelo centro e reconhecem os locais que fotografam, das fotografias que os filhos levaram para casa no ano anterior. “Acho que este bilhete que permite visitar vários espaços é um excelente atrativo para prender as pessoas um pouco mais, de outra forma provavelmente seguíamos viagem depois de ver uma ou duas coisas”, reconhece Noah. O Guimarães Pass foi criado a meio do ano de 2017, e permite visitar onze espaços com um único título. Pode ser adquirido em duas modalidades: com ou sem viagem de teleférico. A ideia é tirar os turistas do circuito mais habitual e levá-los a conhecer outros espaços, como a Plataforma da Artes ou a Casa da Memória.

França é o segundo maior emissor de turistas para Guimarães, em 2017 foram 13.426. Desde a Capital Europeia da Cultura os visitantes gauleses não têm parado de aumentar, 17% em 2013, 18% em 2014, 20% em 2015 e outro tanto em 2016.

Emma e Noah estão ansiosos por experimentar o teleférico. “A vista deve ser fantástica”, exulta Emma. Quando os filhos estiveram na cidade o equipamento estava em manutenção, por isso, a fotografia da viagem no teleférico “vai ser o nosso troféu”, diz Noah em jeito de brincadeira.

Em 2016 o teleférico vendeu 228.066 viagens, um número ainda menor que no ano recorde de 2012, em que se realizaram 249.697 viagens, mesmo assim exprimindo uma tendência crescente relativamente a 2013 (160.035), 2014 (155.831) e 2015 (212.493).

Dona Augusta, da Adega dos Caquinhos, queixa-se que “há muitos turistas mas pouco dinheiro; vem um casal pede uma dose e divide pelos dois”. Mas outros gerentes de restaurantes confirmam que durante os anos da crise foram os turistas que suportaram a quebra do consumo por parte dos portugueses. Segundo o Instituto de Planeamento do Turismo os turistas brasileiros são os que gastam mais no Norte de Portugal – com um consumo médio de 98 euros por pessoa e noite – e são também os que permanecem mais tempo na região. Já os luxemburgueses, belgas, suíços e franceses são os que gastam menos, variando entre 33 e 51 euros.

No setor do turismo não há mão desemprego, pelo contrário, há falta de mão de obra. Os estudantes do curso profissional de Técnico de Cozinha e Pastelaria, da Escola Secundária Martins Sarmento, têm uma taxa de empregabilidade de 100%. Muitos dos estudantes ficam a trabalhar nos locais onde fazem estágio. A formação nesta área, em Guimarães, será reforçada a partir de 2018 com a abertura dos cursos da Escola Superior de Hotelaria do IPCA, em linha com as linhas de orientação do Turismo Porto e Norte de Portugal, que passam pela qualificação da oferta turística.

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