UMA VERDADE POUCO CONVENIENTE

por MARCELA MAIA
Técnica de relações internacionais na Universidade do Minho

Novembro bate-nos à porta carregado de cinzento. Traz consigo memórias dos que partiram, frio e o cheiro a castanhas.

Este novembro trouxe também uma mudança que terá impacto em todo o mundo – os Estados Unidos da América (E.U.A) elegeram como seu novo Presidente, Donald Trump, um homem controverso que se diz querer terminar com o legado deixado por Barack Obama.

A promessa central da campanha de Trump era a de tornar a “América Grandiosa Novamente”, fazendo antever o egocentrismo que parece pautar a sua mente. Esta forma de encarar o seu mandato poderá ser altamente perigosa quer para os E.U.A, quer para todos os outros países que mantêm relações com os mesmos, afinal, quer se queira quer não somos todos cidadãos desta mesma aldeia global em que se tornou o nosso mundo.

Poderia enumerar as propostas eleitorais de Donald Trump que me causam arrepios na espinha, mas ao ouvir a chuva bater na minha janela recordo-me mormente de uma dessas mesmas propostas.

O novo Presidente, eleito para governar uma das maiores potencias mundiais, referiu várias vezes ao longo da sua campanha que as alterações climáticas não passavam de um mito e que os E.U.A poderiam vir a retirar-se do acordo firmado em 2015 durante a cimeira do clima em Paris.

Esse mesmo homem, que julga que as eólicas e as lâmpadas economizadoras de energia causam doenças, quer também reavivar as industrias de petróleo e carvão dos E.U.A.

Do outro lado da barricada, no ano de 2006, Al Gore – outrora vice-presidente dos E.U.A, candidato à presidência e nobel da paz 2007 – alertava-nos para uma “verdade inconveniente” que seriam, precisamente, as alterações climáticas. Mais recentemente Leonardo DiCaprio – mensageiro da paz da ONU para as alterações climáticas – levou-nos à volta do Globo para nos mostrar os nefastos efeitos que este problema tem vindo a produzir no nosso planeta.

É real, não foi encenado em Hollywood nem é um mito criado pela China para obter vantagens económicas – como acredita Trump.

O consumo desenfreado destrói o planeta a olhos vistos. Na Indonésia, cerca de 80% da floresta da Sumatra foi destruída para dar lugar a plantações de óleo de palma – utilizado na indústria alimentar, cosmética e detergentes. Todos os anos 600 000 crianças morrem devido à poluição atmosférica. Há espécies a extinguirem-se, há territórios que desaparecem e pessoas sem acesso a comida, água, eletricidade.

Por cá este assunto é uma não noticia – afinal não é sobre um português que andou fugido à justiça durante uns tempos – e muitas pessoas não têm oportunidade de perceber a real importância do mesmo.

Mas afinal de quem é a culpa? A culpa parece querer morrer solteira apesar de estar intimamente relacionada com cada um de nós. Quase todos os dias contribuímos para o agravamento das emissões de CO2, seja por aumentarmos o consumo de carne, por utilizarmos meios de transporte poluentes ou até por adquirirmos produtos produzidos com o óleo de palma que causa a desflorestação em Sumatra.

É certo que não possuímos o poder de intervenção que os E.U.A possuem, mas podemos certamente refletir sobre as nossas ações e decidir que não queremos ser como o Donald Trump…

 

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