O caminho para Ítaca

Há histórias que regressam porque, na verdade, nunca chegaram a partir. Em Odisseia, Ulisses atravessa dez anos de tempestade porque quer chegar a casa. Na política de hoje, esse objetivo cada vez mais se perdeu. Há quem já não atravesse a tempestade, simplesmente, precise dela. Sem um inimigo, sem uma ameaça, sem guerra permanente, não sabe quem é nem o que tem para oferecer

@ Vitor Coelho

Quase três mil anos depois de Homero, Christopher Nolan devolveu Ulisses ao centro da discussão pública e, com ele, uma pergunta antiga, o que acontece a um homem, e a uma sociedade, depois da vitória?
Não me interessa discutir aqui as opiniões e as polémicas que rodeiam o filme, se Nyong’o foi bem escolhida para o papel de Helena, se Nolan leu Homero como Homero gostaria de ser lido, ou se apenas leu a primeira frase da tradução de Emily Wilson, «Tell me about a complicated man». A própria Wilson tratou disso dizendo que ficou lisonjeada por ele ter lido pelo menos a primeira linha da sua tradução, e acrescentou, sem levantar a voz, que teria vergonha de ter escrito qualquer parte daquele guião.
Fui ver o filme em pleno Agosto e a sala estava cheia. Cheia para ver uma história com quase três mil anos que toda a gente já conhece ou de que pelo menos já ouviu pedaços. Uma epopeia com deuses e deusas, um gigante de um olho só e muita magia à mistura, cujo final ninguém precisa de perguntar. Não vi ninguém sair antes do fim.
Cheguei ao final com uma pergunta que já não era sobre o filme. Por que razão uma narrativa tão antiga nos parece tão atual? Talvez porque nunca tenhamos estado tão rodeados de políticos que se julgam Ulisses e tão longe de Ítaca.
Homero apresenta-o logo na primeira linha como um homem de muitas voltas, de muitos caminhos, de muitos recursos. Inteligente, astuto, manipulador, contraditório. Vence pela palavra e pelo engano tanto quanto pela espada. É um herói, mas não é um homem simples, e é essa ambiguidade que o torna tão do nosso tempo.
Hoje também há muitos homens de muitas voltas. Mudam de posição sem mudar de tom, transformam a exceção em princípio quando lhes convém, falam uma língua na oposição e outra na liderança. Cada recuo é apresentado como estratégia, cada contradição como evolução, cada fracasso como consequência de uma tempestade provocada por outros.
No início de Agosto, Ezra Klein escreveu no New York Times que A Odisseia é «o filme político da década». Essa leitura parte de uma figura que Klein vai buscar a Lewis Hyde: o trickster, o transgressor que atravessa fronteiras e perturba aquilo de que uma cultura depende. Hyde afirma que estas figuras são simultaneamente necessárias e perigosas. E uma sociedade que não responde à disrupção com criatividade não sobrevive à mudança. Uma sociedade que não protege os valores comuns é consumida por ela.
É difícil não reconhecer estas figuras à escala local e mundial. Donald Trump, expoente deste conceito, transformou a imprevisibilidade num método. Nunca se sabe se uma frase é uma ameaça, uma promessa, uma provocação ou apenas mais uma frase. Mas a gramática alastrou muito para além dele. A força volta a ser apresentada como razão suficiente e a crueldade como prova de coragem.
Seria cómodo colocar o problema num só campo. A tentação de substituir a persuasão pela certeza moral, de tratar quem hesita como cúmplice e a divergência como desvio, não é propriedade de ninguém. Uns fazem da brutalidade uma virtude, outros confundem ter razão com dispensar-se de convencer. Em ambos os casos sobra pouco espaço para construir uma comunidade.
O que o filme coloca no centro, e é aí que se torna verdadeiramente político, não é a astúcia de Ulisses. É a lei da hospitalidade. Entre os gregos, receber quem chegava não era gentileza, era obrigação sagrada, o viajante podia até ser um deus disfarçado. Pode parecer uma regra estranha, mas é uma regra prática. Sem ela, ninguém pode viajar, fazer comércio, negociar, sair de casa. A hospitalidade não é um sentimento. É uma infraestrutura.
E isto, ao contrário do que parece, não é matéria grega. É assunto nosso. Este é um país que passou dois séculos a bater a portas alheias. Quase todas as famílias que conheço têm um tio no Brasil, um irmão em França, uma prima na Suíça, alguém que foi a salto e voltou com uma história que nunca contou por inteiro. Aprendemos, na pele, o que custa chegar a um sítio onde ninguém é obrigado a receber-nos. Não é preciso concordar sobre política de imigração para reconhecer que quem sabe isto sabe uma coisa que não vem nos livros. E que a esqueceu depressa de mais.
É por isso que o cavalo de Troia continua a ser uma imagem tão poderosa. O engano só funciona porque a confiança existe. Um presente é recebido como presente, uma palavra significa aquilo que parece significar. Quando alguém usa essa confiança para destruir as regras partilhadas, o dano ultrapassa em muito a vitória alcançada. A partir daí, todos são suspeitos, e quem bater à porta a seguir paga a fatura.
Na política, os cavalos de Troia já não são de madeira. São promessas impossíveis, números sem contexto, vídeos cortados, preconceitos disfarçados de bom senso, interesses particulares apresentados como causas públicas. Entram pelas muralhas porque dizem exatamente aquilo que se quer ouvir.
Vemos todos os dias esses factos retirados do contexto, as notícias falsas. Depois de explicados ou quando já ninguém se lembrava do assunto a correção já não interessa a ninguém. O cavalo entra facilmente, o portão abre com facilidade. A inteligência artificial permite hoje produzir e multiplicar estas coisas a uma velocidade que Homero não imaginaria, mas a máquina não faz o trabalho todo. Continua a precisar de nós para o último detalhe.
O perigo maior não está na mentira. Está na destruição da possibilidade de acreditar. Uma democracia em que ninguém confia em ninguém pode continuar a ter eleições, parlamentos e debates. Pode até ser muito ruidosa. Mas será sempre mais fraca.
Em Portugal, André Ventura percebeu cedo que a indignação circula mais depressa do que a explicação e que a interrupção rende mais do que a proposta. Mas o método não se fica pelo Chega. A política da reação imediata contaminou quase todos os partidos, primeiro procura-se a frase que ganha o dia, depois, se sobrar tempo, pensa-se na década que é preciso governar.
O mesmo acontece quando os factos mudam de valor consoante a camisola de quem os pratica. O que ontem era intolerável passa a ser compreensível. A regra invocada contra o adversário transforma-se numa formalidade quando chega aos nossos. E a coerência, que devia ser o mínimo exigível a quem exerce cargos de responsabilidade, passa a ser tratada como ingenuidade.
Alguns chamam-lhe ética.
Num artigo publicado há duas semanas no Washington Post, Fareed Zakaria retomou o argumento que Klein havia escrito para fazer uma pergunta ainda mais incómoda: temos mesmo de escolher entre grandeza e bondade, entre ambição e dignidade humana? A pergunta interpela sobretudo quem defende uma democracia liberal, porque será um erro responder à política da força apenas com prudência, procedimentos e boas intenções. As instituições não sobrevivem por serem invocadas. Sobrevivem se resolverem os problemas efetivos das pessoas como a habitação, a saúde, a mobilidade, a desigualdade, o clima, o acolhimento e se devolverem a sensação de que o futuro ainda se pode construir.
A decência sem ambição transforma-se em resignação. E a ambição sem limites transforma-se em domínio. A política democrática precisa das duas coisas.
Há quem diga, e merece ser ouvido, que este Ulisses é demasiado nosso, um herói de consciência pesada, atormentado por uma culpa que os gregos não teriam reconhecido, talhado à medida de uma época que se julga mais bondosa do que todas as anteriores e esquece que nem sempre é a mais interessante. É uma crítica justa ao filme. Não é uma resposta ao problema. Podemos discutir se Nolan leu bem Homero. Não podemos é fingir que a confiança não está a ser gasta, dia após dia, precisamente por quem tinha a obrigação de a construir e de a manter.
Nada disto é matéria distante. É na política de proximidade que melhor se percebe a diferença entre vencer e governar. Depois dos cartazes, dos debates e das celebrações, continuam a existir ruas, transportes, habitação, escolas, ambiente, cultura, associações e pessoas à espera de resposta. Os cidadãos não vivem nos discursos. Vivem nas consequências das decisões.
Quem perde não se torna um inimigo, nem fica autorizado a desejar o naufrágio de quem ganhou. E quem vence não se torna dono de Troia. Recebe um mandato, que é outra coisa. Recebe uma cidade que não começa nesse dia, construída por muita gente que lá esteve antes, com muito por fazer e muito já feito. Governar é continuar uma obra alheia ao mesmo tempo que se acrescenta a nossa. Nunca se herda uma tábua rasa.
Não precisamos de líderes com um cavalo mais engenhoso. Precisamos de quem saiba para onde regressa depois da batalha, reconheça os limites da força e não transforme cada momento numa nova frente de guerra. De quem compreenda que o adversário não é um inimigo, que as regras nos vinculam sobretudo quando são inconvenientes e que nenhuma vitória eleitoral dispensa a obrigação de governar para todos.
Escrevo isto sem grande certeza de que sirva de alguma coisa. É possível que um artigo sobre um filme não mude nada, e que a próxima semana traga outra frase do dia e outro cavalo à porta. Mas há uma diferença entre não ter a certeza e desistir de tentar, e é nessa diferença estreita que a democracia se aguenta.
Vencer pode abrir as portas de um partido, de uma cidade ou de um país, não nos diz o que fica de pé na manhã seguinte.
A democracia não precisa de mais um cavalo de Troia. Precisa de encontrar o caminho para Ítaca.

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