BERÇO DE CAMPEÕES

Escondido no meio da cidade de Guimarães há um clube onde nasceu um campeão de classe mundial e onde o trabalho continua todos os dias.

Quem desce a Dr. Arnaldo Sampaio em direção à Av. São Gonçalo vê do lado esquerdo o Estádio Dom Afonso Henriques, a casa do clube de futebol da cidade, se olhar para o lado direito, escondido entre as árvores, num ponto mais elevado, vislumbra o Clube de Ténis de Guimarães. Mete-se por uma rampa, passa-se um portão como se estivéssemos a entrar numa quinta, e ali está o clube. Um casario de pedra onde está instalada a secretaria, um bar e uma belíssima esplanada, com vista sobre o court 3, um gabinete de fisioterapia e um centro de estudo. O local emana uma calma improvável no coração de uma grande cidade. Há um sócio que lê o jornal aproveitando o generoso sol de fim de tardede outono. O clube não serve só para jogar ténis, é um retiro e um ponto de encontro.

No Clube de Ténis de Guimarães pode-se encarar a modalidade de diversas formas. Os mais pequenos estão enquadrados nas diversas classes dos escalões de formação. Alguns mais novos, que as mães e os pais vão deixando ao cuidado dos treinadores, parecem pequenos demais para pegar numa raquete. A dúvida só persiste até começarem a bater as primeiras bolas. Os mais jovens terão cinco anos. Entre os adultos há os que têm aulas para aprender a jogar e os que jogam entre si o “ténis social”, como lhe chama o presidente do clube, José Fernandes. Uma pequena minoria, “porque o ténis de competição é muito exigente”, explica o diretor técnico Ferreira da Costa.

Entre esta pequena elite, Ferreira da Costa destaca Francisca Jorge. A tenista de quinze anos já é campeã de sub-16 em singulares, pares e pares mistos, foi campeã de sub-14 e de sub-12. Quem entrar no Clube de Ténis de Guimarães depois das 17h30 e vir esta jovem a treinar, no court 5, não terá nenhuma dúvida de que o ténis que pratica está muito para lá daquilo que seria de esperar na sua idade. “Temos muita esperança nela”, comenta Ferreira da Costa. O ténis exige “muita dedicação, abnegação mesmo”.

Uma tenista como a Francisca já tem dificuldade em encontrar adversários à altura para conseguir treinar no clube. Inevitavelmente terá que sair se “quiser continuar no carrossel”. Foi o que aconteceu com o João Sousa. O número 45 do ranking ATP bateu as primeiras bolas no Clube. Aos 15 anos partiu para Barcelona para poder continuar a evoluir. O técnico do Clube vai observando o treino da Francisca ao mesmo tempo que comenta que aquilo que mais admira no João Sousa é a persistência. “Mesmo quando os resultados não apareciam ele continuou lá, acreditou”, comenta Ferreira da Costa. O treinador deve saber do que fala, ele próprio foi um desportista de alto nível, jogador profissional de futebol, andou pelo Porto e várias épocas ao serviço do Vitória de Guimarães pelo meio da década de setenta. A paixão pelo ténis surgiu quando jogava na Madeira, já em fim de carreira.

Quando voltou a Guimarães nunca mais parou com o ténis. Fez diversas formações para assumir funções de treinador e iniciou uma carreira de jogador como veterano. No total soma oito títulos nacionais de veteranos. “Ensinei-lhe a fazer isto e ela agora brinca comigo”, ironiza o veterano treinador, quando a pequena Matilde Jorge o obriga a subir à rede para não perder uma bola. A Matilde, a irmã mais nova da Francisca Jorge, na primeira participação foi campeã nacional de sub-12.

O ténis é um desporto extremamente exigente em termos físicos. Numa partida o jogador corre quilómetros, com constantes mudanças de velocidade e direção. E pode durar horas e ser decidida por um detalhe. Talvez por isso não seja invulgar encontrar outros atletas que depois de terminadas as suas carreiras profissionais se dedicam ao ténis. O diretor técnico do clube não é caso isolado. Andando pelos caminhos que dão acesso aos oito courts do clube é possível cruzar-se com algumas antigas glórias do Vitória de Guimarães, do Benfica e da Seleção Nacional.

O Clube de Ténis de Guimarães tem de 270 praticantes. Destes 150 estão na formação, 60 adultos em aulas e outros 60 jogadores de ténis social. “O ténis não é caro, como a maior parte das pessoas pensam”, esclarece o presidente. “Os miúdos na formação pagam 35 € por mês e têm aulas 2 vezes por semana”. O que pode tornar o ténis caro é a competição. Como este é um desporto centrado no indivíduo, todo o investimento para participar em torneios fica a cargo do atleta. Mesmo quando se deslocam ao estrangeiro a participação da federação é residual, muitas vezes resume-se a enviar um treinador para acompanhar os atletas menores. “Aqui não há carrinhas para levar os atletas”, ironiza José Fernandes.

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