CONTRA AS DIFICULDADES CORRER SEM PARAR

“Forte a treinar e a competir, com uma enorme capacidade de sofrimento”, é assim que o treinador descreve Manuel Mendes. O atleta do Vitória de Guimarães apurado para os Campeonatos do Mundo de Londres, em Abril de 2016.

Aqueles que se lembram de Manuel Freitas Mendes no Instituto de Sezim, com dez anos, têm memória de um rapazinho com cara de poucos amigos, pouco dado a conviver com os outros meninos. O que ninguém sabia naquela altura e agora só não sabe quem não tiver o privilégio de falar com ele, é que se trata de uma pessoa maravilhosa. Um homem simpático, humilde, realizado, que transparece calma em cada gesto e em cada palavra. Naquela altura, o acidente com uma máquina agrícola, que lhe amputou o braço esquerdo acima do cotovelo, ainda tinha sido há pouco tempo. “Um menino de 9 anos ficar sem um braço” – descreve e ao fazê-lo parece que voltamos a ver o menino – “não era fácil. As crianças são cruéis. Agora chamam-lhe bulling”. A postura de poucos amigos foi instinto de proteção num meio cruel com a diferença. É certo que pode não ter sido só isso. Manuel Mendes reconhece que durante muitos anos ele próprio teve dificuldade em aceitar aquilo que lhe tinha acontecido. Os tempos da adolescência e a juventude em que a imagem que o espelho devolvia não era a imagem sonhada, não foram fáceis. “Aonde é que eu naquela altura iria correr de manga curta”, comenta Manuel Mendes, sentado com a camisola de manga curta do Vitória de Guimarães. Em fundo a Pista de Atletismo Gémeos Castro, é hoje o seu ambiente natural.

Há 15 anos começou a correr pela mão de um tio que já fazia atletismo. “Era uma malta que se juntava em Azurém, junto à Universidade do Minho, por isso, demos ao grupo o nome Team UM. Mas ninguém era estudante, professor ou funcionário da universidade”, diz a rir. Manuel Mendes é um homem com um sorriso fácil e sincero. Não é incontido, pelo contrário é calmo e transmite afabilidade. Manuel Mendes fala desta época como um marco muito importante na sua vida. Teve que deixar os complexos para trás, ou pensava em correr, ou no braço que lhe faltava. “Libertei-me de complexos”, afirma e sublinha que o grupo foi muito importante.

Manuel Mendes com o treinador Ricardo Ribas

Manuel Mendes com o treinador Ricardo Ribas

O atletismo é um desporto individual, mas em que nada se faz sozinho. Seja pela formação desportiva ou por natureza da sua personalidade, Manuel não é homem de se esquecer dos que estão ou estiveram ao seu lado. “Quando falarem comigo gostaria que o Ricardo Ribas estivesse presente. Ele é o meu treinador e sem ele nada teria sido possível”, disse à nossa redação logo no primeiro contacto, quando lhe pedimos para falar com o Mais Guimarães. Teria sido tão fácil esquecer-se, mas não é do perfil deste homem. Os dois não se cruzaram há muito tempo, mas percebe-se já uma grande cumplicidade. Em 2014, na Maratona do Porto, Manuel Mendes já levava vários anos como atleta, muitas provas, muitos quilómetros, mas sempre como um passatempo. Já todos reconheciam que Manuel andava bem, os seus tempos faziam inveja a muitos atletas sem limitações, mas ficava por aí. Nessa maratona, porém, Manuel correu durante vários quilómetros com outro atleta paralímpico, falaram um pouco enquanto corriam e no dia seguinte esse atleta telefonou-lhe para lhe dizer que o tempo que tinha feito estava dentro dos mínimos para ser selecionável. “Nem acreditei, pensei que estava a brincar.”

Foi nesta altura que procurou o Ricardo Ribas, atleta especialista no corta-mato e na maratona, com uma carreira já longa, é atualmente o português com mais participações em campeonatos internacionais de corta-mato. “O Ricardo interessou-se por mim e ajudou-me muito”, reconhece Manuel. O trabalho dos dois começou a dar frutos rapidamente. Já este ano, em Sevilha, Manuel Mendes fez 2h46’52’’ na maratona, no dia 8 de novembro, fez 2h44’57’’ na Maratona do Porto. “Podia fazer melhor se não estivesse tanto calor”, lembra o treinador. Com estes resultados o Manuel está apurado para o Campeonato do Mundo, que se realiza em Londres, em Abril de 2016. Apesar deste feito permanece simples e destaca a família que o apoia, o patrão que lhe dá liberdade para poder treinar, os colegas de equipa, os patrocinadores e o Ricardo Ribas. Relativamente aos Jogos Paralímpicos, em setembro do próximo ano, Manuel fez melhor do que o tempo de referência, mas como há quotas, o tempo não basta. “O Manuel Mendes vai ter fazer uma prova muito boa em Londres e depois vamos ver o que os outros fazem”, explica Ricardo Ribas.

Despedimo-nos dos dois campeões, depois de os ver a evoluir um pouco na pista, num maravilhoso dia de sol. A partir de dezembro Manuel começa a preparação para Londres. Esperemos que uma estrela ilumine sempre o seu caminho.

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