Falemos de pandemia, para variar

por José da Rocha e Costa

Toda a gente está farta de ouvir falar da pandemia, nos telejornais, nos jornais, na rádio e em todos os sítios a que se vá. Como tal, e para variar um bocado, vou dedicar este espaço de opinião a falar sobre… adivinharam: a pandemia outra vez.

Entrou em vigor a partir da última sexta-feira uma nova fase de confinamento geral, no entanto, ao contrário do confinamento ocorrido em Março e Abril do ano passado em que as pessoas cumpriram na grande maioria aquilo que lhes foi pedido, desta vez a ordem de confinamento parece, pelo menos para já, não estar a surtir grande efeito. Há quem diga que a grande diferença está nas escolas continuarem a funcionar, e com elas os milhões de pessoas que elas envolvem, não só os alunos e professores, mas também os pais que vão levar os miúdos à escola e toda uma estrutura necessária para as escolas funcionarem.

Mas então porque é que não se fecham as escolas, como aconteceu no confinamento do ano passado? Existem, a meu ver, dois motivos principais para que o fecho das escolas esteja a ser evitado até à última. O primeiro tem que ver com as aulas em si e com a importância das aulas presenciais na formação dos alunos. O modelo que foi seguido no ano passado, em que foram instituídas as aulas por videoconferência, provou não ser suficientemente abrangente no que ao nível de aprendizagem diz respeito. Tanto, que as primeiras semanas do presente ano lectivo foram dedicadas a rever tudo aquilo que tinha sido leccionado na segunda metade do ano lectivo anterior.

O segundo motivo, que talvez seja o mais relevante, tem a ver com questões económicas. Parar as aulas presenciais e encerrar as escolas, pressupõe que teria que ser dado aos pais a opção de ficar em casa a cuidar dos filhos, mantendo a totalidade do seu vencimento. Assim sendo, o Estado teria novamente que suportar os custos deste “lay-off” e aí é que reside o problema: será que ainda há liquidez suficiente de modo a permitir assumir esses custos?

Mas o facto de as escolas estarem a funcionar não é por si só suficiente para explicar a falta de adesão a este novo confinamento. Se retirarmos este factor da equação por um momento, e olharmos para o comportamento dos cidadãos que não estão em idade escolar, nem têm filhos em idade escolar, continuamos a ver um comportamento diferente daquele que se verificou em Março do ano passado. A população está mais relutante em aceitar as limitações que lhes estão a ser impostas e olha para as regras aplicadas mais como sugestões do que como regras que são. Isto resulta também de uma crescente desconfiança em relação ao governo e às entidades de saúde, que têm sido erráticos em algumas das medidas adoptadas e não foram suficientemente proactivos nas medidas que poderiam ter adoptado na fase que antecedeu a esta nova vaga. É cada vez mais frequente ouvir pessoas a criticar o fecho de estabelecimentos e a aderir a teorias da conspiração que vão surgindo na internet, por forma a justificar o não cumprimento das regras de confinamento e tratá-las mais como uma limitação da sua liberdade do que uma necessidade face ao aumento dramático de casos de covid que se tem verificado nas últimas semanas.

A juntar a tudo isto, há um evidente cansaço que não deve ser menosprezado quando olhamos para o comportamento da população portuguesa. Isto não acontece só em Portugal, nem é exclusivo desta pandemia. Se olharmos para outros eventos disruptivos espalhados pela história (pelo menos aqueles em que há relatos), vemos que à medida que uma situação de excepção se vai prolongando no tempo, há uma tendência das populações a relativizar o perigo e a tentar voltar à sua vida normal como se nada se passasse. Um bom exemplo disso mesmo aconteceu no Reino Unido durante a 2ª Guerra Mundial: quando os Alemães iniciaram a campanha de bombardeamento estratégico, apelidado de Blitz, sobre as maiores cidades do Reino Unido, as populações das cidades refugiaram-se nos túneis do metro e em qualquer tipo de abrigos que conseguiam encontrar. Mas, à medida que a campanha se foi prolongando ao longo de meses, a noção de perigo começou a dissipar-se e começou a ser normal as pessoas andarem na rua, mesmo com as bombas a cair.

Resta-nos aguardar que a vacinação atinja os níveis que se pretende, a ver se o problema se resolve de uma vez por todas e por enquanto, se possível, ficar por casa. Ah, e fazer o possível para que este “se possível” seja mesmo possível.

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