FERREIRA DOS CORREIOS

Nome completo:Manuel Constantino Lopes Ferreira
Nascimento:24 de dezembro de 1915 Ovar, Portugal
Profissão: Ex-Técnico de Manutenção dos Correios

Domingo à tarde e o Sr. Ferreira dos Correios, como é conhecido na cidade, está no sofá com a televisão sintonizada num canal de cinema. Conta-me que gosta muito da pequena caixinha que viu mudar o mundo: “Acompanho o telejornal, vejo filmes de aventura e gosto das séries de amor”. Mas deixa o ecrã – não sem antes me perguntar se quero um cafezinho, ou um licor, um doce de Margaride talvez – e concentra-se em mim, que lhe peço o esforço colossal de resumir os seus quase 100 anos de vida.

Prevenido, o Sr. Ferreira tem o seu trabalho de casa feito. Pega numa folha com um texto escrito pelo seu punho, caligrafia desenhada, nada de letras à máquina. E lê-me, qual perfecionista: “O meu nome é Manuel Constantino Lopes Ferreira. Nasci na então vila de Ovar no dia 24 de Dezembro de 1915. O meu pai era carteiro dos Correios e minha mãe era doméstica”. Interrompo-o para lhe perguntar se tinha irmãos. Responde seco “dois”. Quer continuar a ler para se assegurar de que não se esquece de nada.

Continua. “Vim para Guimarães onde tomei posse em 9 de julho de 1936 integrado nos CTT encarregado do alto cargo da manutenção telefónicas e telegráficas de Guimarães, Vizela e Taipas. Em 1941 aqui casei com uma vimaranense que, infelizmente, já faleceu, no ano 2000, cujo enlace tivemos dois filhos, resultando que, presentemente, tenho quatro netos e duas bisnetas. Desde o falecimento da minha saudosa companheira, passei carinhosamente – mas considero também um fardo – a viver com o meu filho mais velho e com a sua esposa, onde agora me encontro. Estou agora admirado prestes a atingir a rara idade de 100 anos de vida e atendendo que os meus familiares paternos e maternos faleceram muito mais novos, não obstante eu já ter sido submetido a quatro intervenções clínicas sérias tais como pólipo, próstata, estômago, estas duas últimas de origem cancerígena”.

Agora sim, podemos conversar. Não dá para não lhe perguntar. Como é que se chega aos 100 anos com esta cabeça? “Tive sempre uma vida regrada e talvez os cuidados da primeira infância sejam importantes por parte da mãe”, diz-me. Acrescenta: “Trabalho, muito trabalho”. O Sr. Ferreira começou a trabalhar com sete, oito anos, numa serração de família. Atacava as tabuinhas para o tradicional pão-de-ló de Ovar.

Em 1936 chega a uma pobre e imensa Guimarães, que percorreu na sua bicicleta para poder ir reparar os 200 telefones que existiam na cidade. O Sr. Ferreira reformou-se em 1979. Mas nunca parou. Sempre teve jeito para os fios, os equipamentos elétricos e eletrónicos, que arranjava em casa para se entreter, já aposentado. Mas já se deixou disso. Quer ficar mais uns anos para ver como é que o Costa se vai sair com esta solução política. Amanhã quer ficar em casa para receber a visita de familiares e amigos mas promete não se esquecer de ligar ao cardiologista. “Afinal os parabéns também têm que ser dados a ele por eu estar vivo aos 100 anos”.

Por: Catarina Castro Abreu

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