JÚLIO “ALFARRABISTA”

Nome completo: António Júlio de Castro
Nascimento: 09 de julho de 1950, Guimarães
Profissão: Alfarrabista

É numa infância feliz vivida na tradicional rua Francisco Agra – “a grande rua Francisco Agra, das Festas de São João” – onde radica a paixão de António Júlio de Castro, conhecido na urbe vimaranense como Júlio Alfarrabista, pelos livros. Entusiasmam-no as histórias e “as capas magníficas” da banda desenhada da Mundo de Aventuras. Enche a boca para falar dessa meninice traquinas da rua Francisco Agra e da sua proximidade do Campo da Amorosa, onde se disputavam partidas de hóquei e futebol. Lembra os jogos em que “os miúdos iam ao ar” tal a compacidade da massa humana que se juntava para ver os jogos do Vitória. Aos 10 anos muda-se para a rua D. João I onde esteve até ao tempo da tropa. Só de lá sai para fazer o serviço militar, que deixa em maio de 1974.

Apresenta-se no preciso dia 25 de abril de 1974 para “fazer o espólio” na unidade que diz, sem certeza, ter sido a última a render-se aos militares que revolucionavam. Vive o desenrolar daquela semana no epicentro da história de Portugal. Assiste ao primeiro 1.º de maio em liberdade, “num misto de alegria e medo” nos braços e sorrisos das pessoas que adivinhavam uma nova era.

Regressa a Guimarães ao trabalho de escriturário num gabinete de advogados, regressa aos braços da mulher com quem viria a casar nesse mesmo ano de 1974. Quando Salgado Lobo, do escritório onde trabalha, morre, decide estabelecer-se como alfarrabista. “Já eram trinta e tal anos de profissão. Estava na altura de mudar”. Depois de estar paredes meias com a mercearia da rua da Rainha, vai, anos mais tarde, para o actual número 145 dessa histórica artéria vimaranense. Precisa de mais espaço para fazer conviver livros e pessoas. Foi casado 34 anos. A mulher morreu-lhe em 2008 e imaginamos- lhe a saudade ao ver a aliança que permanece na mão esquerda. Tem dois filhos, um formado em Direito e outro a fazer o doutoramento em Etno- -musicologia. Dão-lhe dois netos. Nenhuma menina até agora. E logo ele que gostava tanto de ter uma Catarina. “É o nome mais bonito para uma mulher”.

E sorri ao lembrar-se da Catarininha de Santa Luzia de quem levou “um arraial de porrada” quando misturou os caramelos das figuras dos jogadores de futebol. “Ela tinha um caixote com os caramelos e no fundo estava o ‘ruim’. Era com esse ruim que ganhávamos a bola de capão.

Na brincadeira, eu e o meu primo virámos o caixote sem querer e colocámos os caramelos dentro da caixa desordenadamente. Um rapaz com cinco tostões comprou os caramelos e saiu o ‘ruim’. Ganhou a relíquia mais desejada: a bola de capão! E nós levámos uma coça da Catarininha que nunca mais conseguiu vender aquela caixa de caramelos”. Entre revistas e livros talvez tenha mais de 30 mil livros, não sabe bem. Há pouco tempo uma nova paixão urge: os brinquedos antigos que disputam prateleiras com os livros. E parecem estar a ganhar a batalha porque os brinquedos não são para venda. Quem procura o Júlio Alfarrabista quer o que falta na coleção. “Tudo o que não consegue noutro lado”. Há também a gente nova da Universidade do Minho – o pessoal de engenharia e o pessoal de teatro – que frequenta o alfarrabista. Empresta muita coisa aos estudantes porque sabe as dificuldades que passam. “Caramba! Eles também precisam de uns trocos para a cerveja. E aqui encontram um porto de abrigo”.

Júlio gosta de ter companhia enquanto fuma um cigarro, entre livros e recordações, guardado pela única imagem de São Gualter que se conhece, para além daquela que está na igreja. Não é religioso. Acredita mais nas figuras que circundam a imagem do santo: retratos de escritores portugueses, pequenas molduras pretas que mostram a expressão austera de Torga e o risco ao meio de Mário de Sá-Carneiro.

Por: Catarina Castro Abreu

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