Manuella Bezerra de Melo

Nome
Manuella Bezerra de Melo Martins

Data de nascimento
19/10/1982

Naturalidade
Recife, Brasil

Profissão
Escritora

Manuella Bezerra de Melo sente falta da água morna do mar que banha o Recife. E da luz que colore e aquece o estado onde nasceu: “Fui criada no sol”, conta. E o sol, lá em cima, diz-se há muito tempo, nasce para todos. Esse senso da igualdade, “do todo”, acompanha Manuella há muito tempo. “Às vezes sinto que me preocupo mais com a humanidade do que comigo mesma. Por isso, sempre fui ativista na área dos direitos humanos, sempre estive ligada a movimentos sindicais e feministas, principalmente”, conta. E isso, definindo-a, define também a sua obra, que atravessa mares e fronteiras, entre Brasil, Argentina e Portugal. Lançou “Desanônima” em 2017, uma “autografia” de quando viveu e o livro de poesia “Pés Pequenos pra Tanto Corpo” (em 2019, já por Portugal). É também autora do livro infantil “Existem Sonhos na Rua Amarela”, de 2018. A sua formação, porém, é jornalista. “Trabalhei durante 15 anos como jornalista e com jornalismo cultural”, indica, acrescentando que também explorou a tradução. “Sempre escrevi e fui-me aproximando da literatura. Desde 2013 dedico-me com mais exclusividade à literatura, sendo que trabalho com comunicação na parte de produção de eventos, participando também em painéis de alguns”, acrescenta. Para além disso, é investigadora “das relações entre literatura e sociedade”. Fica já uma promessa: até ao final do ano, sairá o seu novo livro. “Desta vez de ensaio, chamado “A Fenda”, que fala sobre o papel importante da nova poesia brasileiro neste processo do golpe de 2016 no Brasil”.

A instabilidade política e financeira do Brasil, mesmo antes do impeachment de Dilma, motivou-a a mudar de ares. “Já tinha vontade de me mudar. Meu marido tinha uma cafeteria no Brasil. O negócio começou a ficar bem e decidimos que era hora para vender porque, em 2015, o país entrou em crise”, recorda. Do Recife partiu para a Argentina — mais concretamente para Villa General Belgrano, um pequeno município situado nas serras de Córdoba. Mas a crise também começava a manifestar-se noutros países da América Latina. “Então, decidimos ir para um país onde tivesse uma maior estabilidade económica da moeda. E foi aí que decidi que vinha fazer o meu mestrado em Portugal. Chegamos em agosto.” Guimarães não foi o primeiro destino. A decisão de prosseguir estudos em Portugal levou-a a Braga, cidade que achou “muito grande e muito confusa”. E, à semelhança da Villa General Belgrano, Guimarães correspondia ao que a escritora procurava: uma “cidade pequena”, “com maior mobilidade” e onde pudesse ter uma horta. Por cá, é também professora de Artes num programa camarário d’ A Oficina.

E se nas hortas crescem alimentos, há outros solos que podem ser férteis para a cultura. É o caso de Guimarães: “Vejo muito entusiasmo por parte de vários “agitadores”, produtores culturais, os próprios artistas.” Ainda assim, falta há demasiada “burocracia na apresentação da cultura” em Portugal. Manuella refere-se “ao caráter informal da arte de rua, uma coisa mais espontânea”. “Precisa de acontecer mais, por acontecer. Tem de haver um lado de maior abertura, mas também um equilíbrio entre a profissionalização e essa informalidade”, diz. E, por isso, em janeiro deste ano, fez acontecer — com a artista visual Cleo do Vale e a bailarina Isabella Maia — o “Palavra Voa”, um festival para prestarmos “atenção no que nos une e não na diferença do que nos separa”. E “juntar todo o mundo”.

Numa altura em que “todo o mundo” fica em casa, Manuella diz olhar estarrecida para a realidade vivida no Brasil ao longo da pandemia. “Não existe perspetiva de melhoria tão próxima. Existe uma política pública de genocídio. Então, os brasileiros têm de ser subversivos, não obedecendo o Governo”, diz. Ou seja: ficar em casa para desobedecer. “Se vivenciar aqui já foi tão distópico, imagina lá.”

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