MÁRIO CARVALHO

Nome completo
Mário Carvalho

Naturalidade
Pai Penela, Mêda, Guarda

Profissão
Telefonista

Mário deixou de ver, por completo, aos 24 anos. Foi-lhe diagnosticado, à nascença, um glaucoma congénito, que se carateriza por uma pressão intraocular intensa “e que depois provoca cegueira”. “Tropecei numa videira”, recorda, aludindo à altura em que terá perdido toda a visão. Natural de Pai Penela, uma “aldeia com nem 40 habitantes, hoje em dia”, no concelho de Mêda, Guarda, o beirão dedicou-se, durante muito tempo, à agricultura. Na escola, faltou-lhe o apoio dos professores e só mais tarde aprendeu a ler. Foi o trabalho no campo que o manteve agarrado à terra: “Quando se trabalha naquele ramo, não se quer sair da zona.” Mas saiu. Umas férias em Vendas Novas iniciaram o percurso que viria a trazer Mário a Guimarães — acompanhado, desde o início, por Sónia, também ela cega, e sua mulher.
“Na altura, conheci cegos através do telefone. Hoje, há os chats. Dantes, era por conferências a três, por exemplo”, contextualiza. Nessas férias, Sónia disse-lhe que havia de aprender a ler braille. Ela, no Porto, ligava-lhe à noite — depois de dar aulas, já que é professora de música — e ele, em casa, ia aprendendo. Os dedos marcados pela dureza do campo complicaram-lhe a vida no início. “É preciso sensibilidade para apalpar os pontinhos”, refere. Insistiu e conseguiu. Depois, decidiu sair de Pai Penela e rumar ao Porto. Foi no Centro de Educação e Formação Profissional de Areosa, onde aprendeu “braille, informática e mobilidade” — ou seja, “andar com a bengala nas ruas”. Não foi fácil: “Adaptar-me foi muito difícil. Vinha de uma aldeia de 60 pessoas, não tinha o apoio de nenhum familiar na cidade. É muito difícil para uma pessoa cega. Mas consegui e estive lá dois anos.” Não parou por aí: fez ainda a formação de assistente administrativo na Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), que permitia a realização de um estágio. Não pensou duas vezes. Guimarães estava nos planos.
“A minha mulher dá aulas de flauta transversal no conservatório. E era onde eu queria fazer a minha vida. Para a minha terra não queria ir. E então estive em estágio na Câmara Municipal de Guimarães entre 2011 e 2012”, conta. Até 2017, voltou algumas vezes a Mêda, mas, em 2017, assinou um contrato de três anos. “Já é a minha cidade. Mudei para cá a minha morada e tudo”, diz. Vive no Centro Histórico, onde já não se perde mais: “A cidade não está preparada para pessoas com deficiência, mas hoje já conheço bem as ruas. Dantes ia para uma rua e saía por outra, hoje não.”
No trabalho, onde saúda quem para lá liga com um “Câmara Municipal de Guimarães, boa tarde, fala Mário Carvalho”, partilha o departamento com outros dois colegas. No total, há 62 pessoas com deficiência a trabalhar na Câmara Municipal. O teclado não é adaptado. Mário conta com “um software instalado no computador” que se coaduna com o documento aberto, onde tem toda a informação necessária, que escuta através de um auricular. “O resto é exatamente igual. Nós é que nos adaptamos aos equipamentos”, diz.
Terminado o dia de trabalho, garante que evita o elevador. “Subo os degraus. Já passo tanto tempo sendado!” E a casa não está adaptada. “As pessoas pensam que temos tudo adaptado porque existe alguma ignorância” relativamente à vida dos cegos. E alguma “falta de formação”. “Por isso, uso óculos. As pessoas ainda insultam se formos contra elas. O povo não está preparado para ver pessoas cegas. Sei que há muitos cegos em Guimarães, mas não os vimos sozinhos na rua. Porque ou estão casados com alguém que vê ou estão dependentes dos pais”.
Terminada a conversa, é tempo de Mário voltar a casa. Afinal, o horário de trabalho já terminou. No dia seguinte, voltará à sua secretária e ao seu computador. “É um computador igual. Não digo que é um computador como o das pessoas normais, porque normais somos todos. Alguns com algumas limitações.

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