PEDRO

Nome completo: Pedro Brás de Araújo
Nascimento: 04 de abril de 1963
Guimarães, Portugal
Profissão: Engraxador

Abraçou a profissão que hoje consideramos rara quando tinha 12 anos. Um dos 11 engraxadores que preenchiam a parte do muro onde está a Torre da Alfândega – eram dezenas por toda a cidade – precisava de um ajudante e foi falar com a mãe de Pedro. Tinha 11 irmãos e era preciso enfrentar as dificuldades, ajudar na vida de casa. Cedo começou a carregar a caixa de Creixomil para o Toural, de Toural para Creixomil. Até que foi para uma fábrica têxtil nos Cães de Pedra e teve que assumir a profissão de engraxador como um part-time. Entre os fechos e reaberturas da empresa e uma baixa prolongada devido a um acidente de trabalho, os anos de fábrica foram irregulares. Mas nunca deixou o que sempre foi. Engraxador.

Foi assistindo ao desaparecer da profissão nos últimos 30 anos mas Pedro manteve clientes certinhos, que trabalham nos bancos, no Tribunal e nos escritórios de advogados. São sobretudo homens que procuram os seus serviços, que ainda descansam o pé na caixa enquanto Pedro acerta o brilho dos sapatos. Mulheres também as há mas estas preferem deixar as botas para o engraxador tratar enquanto se dedicam a outros recados pela cidade.

Natural de Creixomil, foi viver para Nespereira depois de casado. Mudou-se para a Ilha Sabão há um par de anos e adora a qualidade de vida que a centralidade de Património Mundial lhe dá. Poderíamos dizer que Pedro é o exemplo do cidadão vimaranense que o concelho, que quer ser Capital Verde Europeia, projeta. Não tem carro e é de bicicleta que se movimenta no seu dia a dia. Confessa: “É a minha amante”. Apesar do tumor no joelho (benigno, diagnosticado recentemente), todos os dias pega nas suas duas rodas para os passeios.

Pedro é também conhecido por gerir a distribuição de tampinhas. “Antes tinha a colaboração de um amigo bombeiro a quem entregava as tampinhas mas agora guardo-as na minha oficina para dar a um amigo que tem uma netinha que precisa de cadeira de rodas”, conta. Todos os dias o muro que enverga a inscrição “Aqui nasceu Portugal” é também ponto de entrega de tampinhas, pois as pessoas já sabem que o Pedro as armazena e lhes dá bom destino. Até hoje já conseguiu cadeiras para três crianças.

Para ver o Pedro emocionado é falar-lhe do Vitória. O símbolo faz parte da sua indumentária. Esta época deixou de ir ao Estádio porque “entrava lá a rir e saía de lá a chorar”. “Desiludi-me completamente e agora sou como São Tomé: é ver para crer”, afirma sobre este período de defeso, enquanto dançam as cadeiras de treinadores e se comercializam jogadores. Não diz mais do que isso porque, balbucia, “não gosto de falar de futebol, fico muito perturbado”.

Sentado na sua caixa de engraxador, escovas de um lado, graxas, polimentos e brilhos do outro, Pedro assistiu a 41 anos de evolução da urbe vimaranense, com a sua história, arquitetura e emoções. A transformação do espaço público – “gosto de como ficou a Alameda mas não do Toural, já disse ao presidente, adorava aqueles jardins” – é também a mudança da sua casa. Figura típica dos postais da cidade, vê milhares de pessoas todos os dias, de turistas aos velhos amigos de sempre e de quase nunca. Agora só sai dali para o cemitério, garante.

Por: Catarina Castro Abreu

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