A DISFUNCIONALIDADE BUROCRÁTICA NA VIDA DO VITÓRIA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Existe um poder imperscrutável que age despudoradamente, vagueia invisível e draconianamente sob as nossas cabeças; um poder que tem o direito de ser irresponsável, que opera segundo interpretações particulares e restritivas das regras e leis e que, para além do seu papel admissível, se constitui numa entidade que mais tarde ou mais cedo, terá de ser combatido pelos cidadãos. Esse poder ocupa as malhas intrincadas do Estado, desmembra-se em divisões estratificadas e, apesar das suas lutas internas de reivindicação estatutária, ajusta-se e compõe uma espécie de malha oculta mas pegajosa. A missão desse poder é servir os cidadãos e, em parte, organiza-se para esse objetivo mas, no seu percurso histórico, os seus objetivos passaram também a incorporar a disfuncionalidade, sendo que esta última, apenas serve ao que Jean Baudrillard denominou de «simulacros e simulações», a que se acrescenta também, salamaleques e abuso de autoridade. Esse poder dá-se pelo nome de burocracia. Os seus agentes heroicizam-se no excesso de zelo.

Esta reflexão ocorre-me a partir do conhecimento de que a direção do Vitória Sport Club vai ser levada a julgamento pela Procuradoria-Geral Distrital do Porto acusada de abuso de confiança fiscal qualificado porque, pasme-se, após ser eleita e encontrar o caos na forma de dívidas de 24 milhões de euros e uma falência acelerada, resolveu fazer o que era óbvio: sem anéis, os dirigentes decidiram salvar os dedos para preservar as mãos (neste caso, os pés) e não deixar desmoronar a organização. Fizeram como disse o Marquês do Pombal perante o trágico terramoto de 1755: cuidar dos vivos e enterrar os mortos. Pelos vistos o fisco, essa autoridade cega, preferia a morte de tudo e todos.

Com tomada de posse a 10 de abril de 2012, o “crime” de Júlio Mendes, Armando Marques, Luís Cirilo, Francisco Príncipe e Hugo Freitas foi o de pagar, no dia 30 desse mês, parte dos salários em atraso desde novembro em vez de pagar o correspondente à retenção do IRS. Fincados na letra da lei e excluído o seu espírito, os burocratas do fisco entendem que, tendo havido pagamento a alguém isso quer dizer que houve dinheiro e, assim sendo, vindo de onde viesse, esse dinheiro deveria ser para si. À parte outras visões tecno-legais, reside aqui uma esdrúxula interpretação do acusador fiscal, transformando um gesto altruístico e estoico numa violação punível em sede de crime. Esta atitude revela a moral fiscal da atualidade: «para não teres problemas deixa morrer o que até podia viver». Este processo dita que o aumento de receita fiscal proporcionado pelo estoicismo de Júlio Mendes e os seus, incomoda mais o tesouro do que a diminuição de receita que a morte do Vitória lhe traria.

É evidente que se está perante uma boutade, um capricho para o qual o gasto de dinheiro público não conta. Porque é de dinheiro que vive a disfuncionalidade promovida pela burocracia. Não pelo que poupa mas pelo que aparentemente zela. Era muito bom que um aluno de economia se desse ao trabalho de verificar quanto vai custar este processo judicial e o correlacionasse com o custo que teria sido a falência do Vitoria. Mas que inclua nas contas os custos sociais do desaparecimento de uma agremiação centenária possuída pelo imaginário do arquétipo ascensional que caracteriza os vimaranenses. Porque um sistema dominando pela disfuncionalidade burocrática funda-se na perspetiva de que todo o poder reativo, construído na punição da coisa feita, é mais saudável e superlativamente positivo do que o risco colocado na atividade promotora da obra a fazer. Alheio ao risco, o burocrata é tanto melhor quanta mais coragem suga e tanto superior quanto mais imaginação impede. É, de todo, um gozo pela infelicidade. Uma masturbação ao contrário.

Deve ser por isso que a sociedade atual é compulsada a pagar impostos em vez de se dedicar a fazer crescer a economia. Ganham os burocratas, perdem os que ainda acreditam que o subsídio de desemprego e a inação não são vida. Não são existência. Existir é tomar ativamente a vita activa como escreveu Hannah Arendt. É sabida a realidade: com uma grande dose de sorte à mistura – mas a sorte é de quem se põe a jeito dela – o Vitória está em vias de debelar o seu alto passivo de 2011. Ao manter a atividade, de abril de 2012 até hoje, gerou com os salários pagos aos seus trabalhadores milhões de euros de IRS e de IVA. Transacionando passes de jogadores para o exterior contribuiu para as exportações. Mas, o que importa isto ao burocrata disfuncional? Nada! Ele determina que, para si, o crime não decorre de um ato em substância mas sim de um registo em abstrato.

Basta um burocrata mal acordado para por em marcha uma corrente disfuncional. A partir daí ninguém mais perturba o seu juízo. Inclusive, nenhum burocrata ajuizado contraria um colega em estado improficiente. Não contrariar o colega é das poucas regras burocratas não prescritas que todo o burocrata aprende e segue cegamente. Se ousasse olhar e visse com a claridade esperada participando e ajudando a participar na sanidade do sistema, seria fácil à burocracia dar-se conta que, ao evitar a falência do clube, os dirigentes do Vitória, contribuíram, positivamente, não só para a economia, como para a manutenção da coesão social, assim como para a riqueza e diversidade da atividade desportiva.

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