DEMÊNCIA E DESMEMÓRIA – O RETROCEDER À INFÂNCIA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

 

Começa indelével, parece que não é nada. A princípio até dá para contar como se fossem peripécias da vida. Parece desleixo. Desinteresse. Falta de atenção. Que coisa mais estranha essa de arrumar a carteira na despensa! Aos poucos vão repetindo peripécias. Depois de uma pequena sesta de vinte minutos desorienta-se do tempo: já são horas do almoço? São os sinais dados pelas falhas de memória que assinalam os primeiros alertas. O que será? O primeiro diagnóstico é o popular cansaço mental. Pode não haver grande atividade a exigir a presença do cérebro mas a culpa vai para o seu demasiado uso. É da cabeça, sabe! Mas o cenário de falhas continuam a acontecer cada vez mais recorrentes. Troca-se o almoço pelo jantar, o dia da semana, fala-se num acontecido nunca acontecido, conta-se uma história desconexa.

Aos poucos a pessoa vai ficando dentro dela. Interioriza-se num processo de ingresso no regresso. Anda para trás no aprender. Vai-se ao encontro da desmemória. Segue-se uma desaprendizagem. Caminha para a infantilização. Esquece o essencial: quantos são dois mais dois? O mundo, este mundo, fica quedo enquanto a pessoa se vai desintegrando no interior de si. Chega-se ao ponto em que pessoa e atos desligam-se e, nessa altura, já não há propriamente consequência do agir.

Corpo e consciência afastam-se. Os atos vão-se desconectando de pessoa e a pessoa desligada de afazeres. Desaparece a ordem e impõe-se a desordem. Não se reconhece a falha, não se distinguem os lapsos. Não se vislumbra o certo do errado. Aliás, não há certo nem errado. Aliás, não há. Nada interessa. Nada importa. Pratica-se o outrora impraticável. Age-se sem sentido segundo a inconsciência de acordo com o desarranjo involuntário. Diz-se o inverosímil. Revela-se o indescritível. Faz-se o inenarrável. Realiza-se o impensado. Presta-se o inabitual.

Quase que é possível vislumbrar a energia vital abandonando o corpo. A fisionomia muda. O corpo some-se em si. A massa corporal vai desaparecendo. Emagrece-se. Mingua-se. As marcas do tempo inscritas no rosto vincam-se ainda mais. Envelhece-se aceleradamente. Perde-se altura. Desaparece o controlo motor dos membros. Mover o corpo torna-se difícil quiçá impossível. Sentar é penoso. Levantar é laborioso. Mover é perigoso. Deixa-se de precisar. Deixa-se de gostar. Deixa-se de pedir. Deixa-se de ter vontade. Não se deseja. Não se ambiciona. Uma renúncia pousa no corpo e na mente da pessoa.

Tudo é débil. O andar torna-se periclitante. Comer passa a ser um acaso. Sorrir uma raridade. Falar um incómodo. O olhar perde expressão e objeto. A retina fixa um ponto por longo tempo aí mantendo-se sem exteriorização do efeito. Não há finito no ver. Olha-se mas não se vê. Não há capacidade analítica. As pessoas habituais de uma vida deixam de ser reconhecidas. Escapam-se os nomes. Esquecem-se os rostos, as relações, os familiares. O processo de demência é um processo que infantiliza. Reduz toda a adultez à insignificância meninil. Trata-se de um estranho regresso ao ponto de partida da vida. Um retrocesso a que o mundo se não preparou mas que, cada vez mais, está presente no mundo civilizado.

Segundo o relatório “Health at a Glance 2017” da OCDE publicado no final do ano, Portugal aparece colocado em 4.º lugar no ranking de países com mais casos de demência. Enquanto a média da OCDE é de 14,8 casos por cada mil habitantes, Portugal apresenta uma taxa de 19,9 casos por mil habitantes. O caso japonês é o mais destacado no mundo com 23,3 casos por mil habitantes, seguido de Itália, Alemanha, Portugal, França, Grécia e Espanha. Uma vez que a prevalência da demência aumenta com a idade, o envelhecimento português não reserva boas notícias para o futuro recente. O caso parece simples: quanto mais a ciência e a medicina avançam, mais os corpos estão a durar. Paradoxalmente menos dura a qualidade do cérebro, da memória, das conexões nervosas. A vida do corpo é separa-se da morte da consciência. É nova era para o cogito ergo sum: já não penso logo existo. Agora não penso mas persisto!

A maior questão à volta da demência centra-se no reduzido número de instituições especializadas para este fenómeno. Regra geral não existem. Sobram assim as ‘Estruturas Residenciais de Pessoas Idosas’, vulgarmente conhecidos por ‘Lares de Idosos’. Regra geral a receção de pessoas com demência não é bem-vinda, havendo inclusive instituições que, declaradamente, ou as evitam ou as recusam. Deste modo os idosos com demência tornam-se num problema a que os familiares têm de encontrar respostas num quadro de perfeito desinteresse da saúde pública.

Com o problema entregue às famílias, são as mulheres quem mais sofre quando este quadro se prostra. Por um lado, porque persiste a ordem conservadora que afasta os homens do acompanhamento de doentes em geral. Por outro porque, na decorrência do anteriormente exprimido, são as mulheres a quem é atribuído o papel de cuidadora. Nesta separação de papéis, persiste o arquétipo da maternidade: seja no nascimento, seja na demência, perante um quadro dado de infantilização, os homens afastam-se e, com o seu afastamento impõem uma obrigação ao que pensam ser o papel das mulheres. O que representa a persistência do manifesto e intolerável machismo cujas mãos parecem ter nojo de tocar em todo o corpo que se desconforma.

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