OS ARDILOSOS HERDEIROS

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

 

Pais, o que se passa convosco no que entendem por aprendizagem dos vossos filhos? Porquê esta pressão para que os professores atribuam aos vossos filhos as notas que estes não merecem? Onde foram buscar esta novel ideia de que a nota não precisa expressar aprendizagem? Que fenómeno se intrometeu na qualidade progenitora, que, pura e simplesmente, os leva a borrifar-se para a educação inscrita no corpo e na mente? E que, em sequência, procuram tornear, por estratégias ínvias – inclusive usando expedientes escondidos nas regras e leis –, de onde não falta uma miserável pressão ao professor para, dessa forma, surgir uma imerecida classificação final da filho ou filha?

Pior ainda, vangloriam-se! Vangloriam-se como excelsos vencedores de uma contenda. Quando, através de esquemas e habilidades saloias, conseguem alterar uma nota no menino e da menina, estes pais exaltam-se como tendo realizado um feito! Ah e tal, o professor “xis” ia reprovar a minha cachopa mas eu agi. Fui por aqui e por ali, mexi os cordelinhos. Falei com fulano de tal que conhece sicrano e sabe como se deve fazer para o professor ‘ser obrigado’ a passar. O professor começou a dizer que não mas quando viu que eu ia infernizar-lhe a vida… olha que remédio teve: passou-a! É assim, se uma pessoa não está atenta não consegue nada. Temos de ser espertos. (Parêntesis para dizer que esta eufórica e triunfante conversa foi escutada num café da cidade de Guimarães).

É evidente que não se pretende afirmar que este quadro é generalizável. De todo, não é. Trata-se de uma minoria que por ser, cada vez mais, recorrente e desinibida, tende a tronar-se importante. É possível afirmar, sem que de um preconceito se trate, que este papel de “grande educadora pela via da nota final” está, há muito, assumido pelas mães das crias. É claramente observável e assaz verdadeiro que, em todos os anos escolares, a maior parte dos encarregados de educação não usam da palavra numa reunião coletiva. Mas, fechado o tempo vivido em silêncio de informações, sobram horas extras de reunião individual para o diretor de turma. Os problemas coletivos nunca chegam à importância da questão individual. Por outras razões, percebe-se que os pais que mais vezes solicitam reuniões individuais com os professores fazem-no, regra geral, como estratégia de aproximação e gestação de laços. Há muito que se sabe que existe uma correlação entre notas de alunos e a frequência de visitas dos encarregados de educação aos professores. Quantas mais visitas, melhores notas. Os pais atuais sabem disso.

É sabido que a escola não anula desigualdades culturais à partida. Antes eliminasse. Mas parece ser uma tragédia observar que quem não nasceu em berço de livros e cultura continue sem entender que todo o conhecimento advém do trabalho. Nas classes mais baixas continua a persistir o mito do talento e da inspiração. Acontecerá, por vezes, um Alfred Newton ou um Albert Einstein mas, como está bom de ver, isso é raro. E, mesmo esses, trabalharam muito para que a ‘inteligência’ os tocasse. São dois bons exemplos de como ‘não há uma boa inspiração que não custe muita transpiração’. Mas tal parece passar ao lado desses pais para quem a nota final não tem que revelar a qualidade e aprendizagem do filho.

Para tal procuram-se formas simples que passam pela obtenção ilegítima de notas escolares. O mais grave é que, se por um lado os professores já estão atados por uma camisa-de-força no qual o aluno é rei e senhor do espaço escolar, o seu papel enquanto pedagogo torna-se ainda mais fragilizado quando o papel dos progenitores é o da procura da facilitação e da oportunidade simplificada. Toda esta situação mina a escola e os seus agentes, transformando-os em componentes manipuláveis do sistema.

Nesta pequena reflexão não se irá ao ponto de tratar do caso das escolas/colégios privados. Aí, como é publicamente sabido, são os progenitores que, arvorando-se em “clientes que pagam”, impõem que o produto “comprado” não é a educação do filho mas sim a sua nota final. É provável que este desmando conhecido, a que os responsáveis fazem de conta inexistir, esteja a contaminar os princípios da educação escolar saudável e a introduzir uma espécie de insanidade como modo de florescimento educativo. Se assim for, estamos, de facto, a caminho de uma imensa tragédia a que nada escapa: pais, alunos, professores, escolas e sociedade.

Disso parece não existir dúvidas na medida em que a moda do progenitor intrometendo-se, insistente e despudoradamente, na imposição da nota positiva ao aluno negativo parece ter chegado às universidades. É preciso repor o sentido claro das coisas: passar de ano é um direito exclusivo para quem estuda, trabalha, e demonstra conhecimentos, se não excelentes, pelo menos suficientes. Persistir neste lodaçal, ao contrário do que pensam os pais, só serve para perpetuar “herdeiros” que, gerados no artifício manhoso do ardil, nada mais lhes resta herdar do que os métodos do ardiloso.

 

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