ENSAIO SOBRE A SAPIÊNCIA DO ‘NÃO-SABER’

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Por estes dias analiso uma série de discussões em grupo que propus a algumas juventudes partidárias em determinados concelhos. Pretendo saber os motivos que levam os jovens a interessar-se pela política. É sabido que o trabalho mais simples seria o de convocar os jovens para saber as razões porque se afastam da política. Mas este seria um trabalho extensível a toda a sociedade ocidental. Portanto, ao invés, coloco a questão a quem resolveu interessar-se pelo fenómeno e lutar por dentro, em vez de olhar de fora acompanhado com aquela afirmação típica “não ligo à política, ela não me diz nada”. Acontece que, nas democracias, a política não se afasta de ninguém. Ela está colada a todos sem exceção. Políticos, por muito que custe, são todos. E diz respeito a todos sem exclusão. De cada vez que alguém se autoexclui da política, julgando com isso dar uma lição ‘aos políticos’ – como soe dizer-se – está, na realidade, a enfraquecer-se, enfraquecendo toda a comunidade.

Um dos meus grupos de jovens debatentes apresentava uma solução que também é a razão para as pessoas de afastarem do campo político. Afirmavam que o nosso sistema político devia ser ensinado nas escolas, Tal não só as levaria a compreender os fenómenos mais escondidos como também passariam a estar possuídos por uma crença maior e, como isso, passavam a ser mais vigilantes com os gestores da coisa pública. Pelo contrário, afirmavam, “a praxis política é feita no sentido das pessoas não saberem muito sobre as coisas da política”.

Na verdade esta afirmação – corroborada por um grupo de seis jovens – revela a pobreza por onde atalhou o nosso sistema de ensino. Chega-se ao 12º. ano – e, em alguns casos ao fim de uma licenciatura – sem saber o que é, como é, e como funciona o nosso sistema político. Pouca gente do distrito de Braga sabe que são precisos 22586 votos para eleger cada um dos 19 deputados do círculo à Assembleia da República. E que, em Beja são necessários menos 2.167 pessoas para eleger um deputado. Desconhecem que, pelas vicissitudes do nosso sistema eleitoral, um conjunto de 10 partidos cujos 65.416 votos de nada serviram, elegeriam três deputados caso se tivessem coligado antes das eleições. Já nem falo do cálculo do método de Hondt, usado em Portugal para a atribuição de mandatos, cujo mecanismo é desconhecido inclusive por muitos que da política fazem profissão.

A maior parte dos portugueses não sabe que a Constituição da República Portuguesa divide o seu povo em duas categorias: os “de origem” que podem ser presidentes da República e os outros que não podem. Os “outros” são as pessoas como o autor deste texto que não é “de origem”, seja lá o que isso for (vidé artigo 122 da Constituição). Na velha tradição contraditória lusa, o artigo 26 da mesma Constituição assegura “proteção legal contra quaisquer formas de discriminação”. Em Portugal, independentemente dos regimes, funciona um dispositivo tendente a perpetuar o desconhecimento e a ignorância como forma de separar a maior parte das pessoas de uma pequena elite que sabe das coisas e, por isso, domina.

Esta realidade da falta de gosto pela política tem-se estendido para outros domínios. Instituir falta de gosto é fácil. Basta lançar o princípio da desnecessidade. Numa reunião de encarregados de educação, assistiu-se a uma mãe perorando de ex-cathedra contra o facto do seu educando ter de saber português ao nível do Padre António Vieira e quejandos. Afirmava que, estando o seu educando orientado para o curso de economia, não via qualquer utilidade no aprofundamento da disciplina de português. Compreende-se a posição desta mãe: a economia, uma antiga ciência social que já foi exigente, tornou-se numa disciplina enviuvada do conhecimento amplo que lhe era característica. Tendo-se afunilado numa lógica positivista – ligou-se exclusivamente às formas econométricas para se aproximar das ciências exatas e parecer ‘mais ciência’– limitou-se na sua exigência interna. Por isso o seu educando será um especialista. E, ao contrário do que acontecia no século XVI – o século em que o homem renasceu – no qual os especialistas sabiam ‘muito de muito’, hoje os especialistas sabem ‘muito de pouco’. Trata-se, como firmou Edgar Morin, de um paradigma perdido. Dito de outro modo, damos graças à ignorância.

 

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