O ‘DOCE INFERNO’ DO GESTO E DA TAREFA OPERÁRIA REPETIDA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

São doze dúzias Jorge. Não te esqueças: doze dúzias! Doze dúzias é uma grosa. Primeiro contas uma dúzia e metes as peças no saco plástico. Não te esqueças, uma dúzia são doze. Quando tiveres doze sacos metes na caixa de cartão canelado e fechas com fita-cola. A caixa é de uma grosa. Portanto, são cento e quarenta e quatro peças Jorge. Tens de ter muito cuidado! Não te enganes na contagem que isso é um trabalho de grande responsabilidade. Vê se te concentras. Presta atenção no que vais fazer. A encomenda são doze grosas. Vê se te despachas porque tem que estar pronto amanhã.

Jorge escutou tudo como uma aprendizagem. Começa a contagem. São sete e trinta da manhã. Como todos os outros, Jorge acordou às seis e meia da manhã. Há um dia inteiro para contar. Unidade, dúzia, caixa, grosa. Unidade, dúzia, caixa, grosa. A cada fim, novo recomeço. Repetem-se gestos. Uma vez, duas vezes, três vezes, até se perder a conta e o gesto entrar em nós como uma mecânica. A repetição adestra e o movimento naturaliza-se ao ponto de se reconciliar com o corpo. Nunca se percebe o momento em que a cinesia se aloja na mente desalojando a consciência. O gesto é, todo ele, produto da inconsciência. Eis, no final, o produto de um dia de trabalho, feito em dúzias e grosas, sem que em momento algum o operário Jorge se sentisse parte do processo.

Aliás, o operário Jorge não queria fazer parte daquele processo. Em boa verdade, Jorge sentia-se processado e em estado permanente de transformação. Fazia o percurso costumeiro. Bastava olhar, escutar e ver o destino aposto, tanto na expressão mímica como na ausência de propósitos dos seus parceiros. Não querer ser-se outra coisa, senão o que oferecia o dia; aquele dia, aquele momento, constituía a contradição de termos das práticas do operário amestrado por uma microfísica envolvente na conformidade e obediência.

À vista da competência operária, tão especializada na sua representação de honradez asceta, Jorge não passava de um aprendiz de dezasseis anos. Faltava-lhe estatuto para ser considerado um parceiro. Era manifestamente incompetente. Inábil. Grande e alto de metro e oitenta mas nem por isso grande coisa de operário. Dizia que estudava mas estava bom de ver que aqueles estudos pouco ensinavam de útil para a vida. Além do mais constipava-se a cada corrente de ar. Ai que flanzinho, um homem tão grande sempre doente! Jorge não nascera para repetir furiosamente durante o dia e permanecer acrítico e submisso. Nunca seria um operário decente na vida. Era claro que não pertencia àquele mundo.

Uma balança pode ser prova. Por algum motivo os seus pratos, rigorosamente nivelados, expressam justiça. Pois, por aqueles dias do ano de 1981, Jorge afirma ter visto uma balança que pode, facilmente, substituir a penosa contagem até à grosa. Doze dúzias. E não erra. Funciona assim: pesam-se doze peças, estabelece-se, rigorosamente, o peso de uma dúzia e, repetindo-se o peso sem a preocupação de contar, não há dúvidas que ali estarão doze peças. Uma dúzia. A insistência de Jorge na demostração da balança durará uns meses largos. A resistência é forte. Pode lá bem ser Jorge, uma balança que conta, onde já se viu. Trabalha mas é! Não sejas malandro.

A balança, coisa digital de último grito tecnológico, chegará um dia. Maravilhará. Fantástico. Extraordinário! Era mesmo como dizia o Jorge: a produção de um dia realiza-se, agora, numa hora. Jorge parece que é salvo pela balança. Mas não será assim tão fácil. Por ali andará dois anos esforçando-se por ser um honesto operador merecedor do respeito dos colegas. Aproveitará para olhar, ver e desgostar. Registará, todavia, o encantamento da vivência habitual sem horizontes, sem ambição, sem antecipação imaginada do futuro. Nenhuma inquietude, nenhum desassossego, nenhum rebuliço ou altercação. Nos gestos da tarefa rotineira, consagrada pela aprendizagem colhida nas práticas, os operários resignavam-se a uma existência frugal e austera, silenciados num modo de vida firmado na ética da escassez e do sofrimento.

Jorge coletará histórias sobre a idiossincrasia do ser operário para, um dia, mais tarde, lhes riscar o traço sociológico em livro, num ato revelador que só faz sentido porque Jorge não nascera para aquele mister. Muitos anos depois, em tempo de substituição do operário pela tecnologia, o ex-jovem aprendiz, confrontar-se-á com uma analogia encontrada no Sermão XIV do Padre António Vieira, pregado aos escravos na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em S.Salvador da Bahia. Aí, o autor alude à existência de um “doce inferno”. Ressalvadas as devidas distâncias, na escala de sofrimento, entre escravos e operários, a referência a um “doce inferno” revela a fórmula nietzscheziana do eterno retorno na construção social dos lugares de submissão e obediência. Escravos, servos, vassalos, plebeus, operários; numa palavra: submissos, habitaram ou habitam o “doce inferno”. E habitam não porque desejam mas porque a ele são forçados. Até que a utilidade despareça. Aliás, como aconteceu aos operários.

 

Nota: Este texto integra o programa da peça de teatro “Eu uso termotebe e o meu pai também” do dramaturgo Ricardo Correia do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV). A peça estreou no passado dia 8 de fevereiro, em Lisboa, no Teatro Nacional D.Maria. Estará em cena em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, no próximo dia 20 de abril pelas 21,30 horas. A sua publicação aqui é, também, um convite para assistir a este espetáculo.

 

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