MISÉRIA DE VELHICE

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Já não há velhos. Na modernidade há idosos. O eufemismo dá ‘chiqueza’ linguística e um aparente estatuto a quem tem marcas do tempo vincados no corpo. Na fórmula, politicamente correta, quem é idoso não é velho. Idoso é uma pessoa, quando muito, viajada na linha temporal da vida, e velhos são os trapos, diz-se. E ninguém quer ser um trapo, apesar do visível estado enrugado que a velhice faz pousar nos corpos. Ser idoso é, portanto, alguém que foi qualquer coisa na vida e agora é qualquer coisa com idade. Eufemismos e preleções à parte serve esta crónica para pensar a velhice, estado biológico que todos os homens e mulheres desejam alcançar como causa de vida, mas ninguém deseja habitar como consequência da mesma vida.

E todavia ser velho já significou posse de sabedoria. Se não outro tipo, pelo menos a experiência de quem vivera uma vida e conhecera os mecanismos do funcionamento do mundo. Nesse tempo, no tempo dos anciãos, a idade avançada compunha um respeitável, posto que constituía a pessoa numa autoridade patriarcal. A perda do vigor físico dava lugar à posse de sapiência. A destreza cedia ao intelecto e à vida executiva sucedia-se a existência contemplativa. Agia-se na aprendizagem dura para se ter direito a explicar as agruras do vivido. Tinha-se experiência.

Não foi um repente. A velhice como um problema foi-se estabelecendo. Porém, do velho ao idoso não passou assim tanto tempo. Gradualmente ser velho passou a ser uma espécie de empecilho. Dir-se-ia que há um amargo contraste na atualidade dos extremos da vida: uma intensa celebração pela raridade do nascimento e um esmorecido tolher pela vulgaridade de tanta gente carregando idade. É provável que se esconda aqui a velha e muito acertada lei económica da oferta e da procura. Valoriza-se o que é escasso, desvaloriza-se o que é abundante. Segue-se aqui um preceito, muito em voga nas universidades, que atribui ‘ciência’ exclusivamente à novidade remetendo toda a ciência antiga para o caixote do lixo. Revistas recusam artigos pelo excesso de citações de ‘velhos’ e falta de citações de ‘novos’.

A fórmula é conhecida: deixai vir a nós as criancinhas enquanto deixamos ir para não se sabe onde os nossos velhos. Na novíssima forma de fazer de conta, há de ficar mal dizê-lo, mas a maneira como a sociedade atual se organiza para com os seus velhos raia o miserável. Voga tudo em contradição: quanto mais a ciência lhes prolonga a vida, mais o sistema económico, assente no capital como fundamento, lhes suga os últimos dias de existência.

Dia após dia é assaz visível o esforço e a ginástica que as famílias têm de realizar para que os seus velhos tenham dias decentes. Se acontecer perderem a independência motora ou serem acometidos por demência a circunstância miserável que aqui se alude torna-se insuportável. E, vivendo agora o corpo mais do que a cabeça, a circunstância mais habitual é depararmo-nos com situações do avanço acentuado de doenças mentais. Sendo a dependência, nestes casos, quase total, ela é agigantada pela perda de razão, o que torna a vida de familiares num inferno. Por outro lado, se a acomodação em lares de terceira idade é escassa só por si, nos casos de demência, a única forma de haver acomodação nesses lares é estando na posse de uma muito boa conta bancária ou de uma excelente posição social que faça funcionar o sistema a seu favor.

Ao contrário do que parece, estamos verdadeiramente perante um caso que já devia ter despertado consciências. Sem dúvida que o problema do aumento exponencial de velhos devia ter uma outra atenção e um debate mais sério. A ausência de uma discussão serena sobre o tema revela, em certo sentido, como a desesperança de quem chega a idade ‘ida’ – o idoso – contrapõe-se à esperança alocada em quem acaba de nascer. E assim gastam-se anos discutindo educação sem nela se introduzir uma educação para a velhice.

Neste antagonismo dos extremos da vida revela-se, contudo, um elo comum entre si: tal como no parto, na hora da velhice voltam a ser as mesmas mulheres que, no seio das famílias, grosso modo, avançam para o acudir às situações periclitantes. Fruto de uma sociedade de papeis divididos onde impera o machismo – que o feminismo atual pretende mudar, ora adestrando pela violência, ora punindo por via legislativa – o mundo da velhice parece nada querer saber sobre velhos. Aliás, em Portugal segue-se o princípio do jogar legislação para cima dos problemas assim parecendo que tudo fica resolvido. O mesmo Estado que proíbe e criminaliza o abandono de velhos segue desinteressado sobre o estado geral da velhice em Portugal. Sem dúvida que os velhos andam aí e são, cada vez, mais. Mas a gentrificação em curso parece ser mais uma oportunidade económica e menos um problema de Estado.

 

Nota: Na edição de dezembro escrevi aqui um texto irónico em que me apresentava como candidato à presidência do Vitória Sport Club. Pretendia evidenciar o ridículo, a desfaçatez e a ausência de auto criticismo como hoje se entende a gestão de um clube desportivo com a dimensão do Vitória. O número de pessoas que me contactaram afirmando querer votar em mim enternece-me. Mas, de todo, não sou candidato. Ficar dependente de uma avaliação pública, que não entende a diferença entre os resultados da organização e os resultados da equipa de futebol, não se coaduna com o que entendo dever ser Vitoriano. Se ambos os resultados dependem da competência é preciso compreender que os segundos estão muito mais expostos a fatores aleatórios. Por isso, nas próximas eleições votarei em quem me demonstrar ter um projeto sustentável para o Vitória, suportado na realidade e não em aventuras. O Vitória tem, sem dúvida, um superávite de corações palpitantes. Contudo, mantenhamos presente que palpitações em demasia dão taquicardias. Na escolha de equipa gestionária, invoquemos mais razão e menos coração.

 

 

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