A PALAVRA

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Se há exemplo paradigmático no qual o usual tem a faculdade de parecer acessório, «a palavra» funda a mais fidedigna prova da banalidade em que transforma a realidade. Apesar de se constituir no mais primordial dos bens imateriais, a atenção pela «palavra» ocupa um lugar básico nas nossas preocupações. E todavia, ela é o fundamento de todos os fundamentos, a mãe de todos os começos, o elo de todas as ligações, o condutor de todos os fluxos. Sem a «palavra», dita ou escrita, nada mais resta; nenhuma relação se estabelece, nenhuma comunicação se processa, nenhum plano se elabora. Não é exagero dizer que sem «palavra» pouco distinguiria a humanidade dos restantes animais.

Apesar da sua omnipresença prática os sentidos do uso da palavra que lhe deviam erguer estátuas todos os dias, andam esconsos, ou melhor entaipados por novas urgências sensoriais: é mais fácil deixar os sentidos adormecerem na bebedeira das imagens, hoje servidas a todo o tempo e de vários modos, do que emprestar a atenção às palavras e à descodificação que elas nos proporcionam. Na voragem encantatória fornecida pela tecnologia damo-nos conta que nada do que acontece sem imagem acontece verdadeiramente. Daí termos hoje uma sociedade que parece abandonar o sentido da palavra dita em copresença, trocando-a pela palavra como acessório da imagem: fotografias de jornais maiores do que a notícia, telegráficos rodapés de televisão.

A cena é uma espécie de etnografia da atualidade: duas pessoas sentam-se numa mesa seja um restaurante, seja um bar ou um café. Por vezes chegam de mãos dadas ou mesmo em íntima fricção. Antes que o cardápio lhes chegue às mãos ou que os olhos de ambos captem a imagem do rosto do outro, ou mesmo que as imaginárias feromonas avancem em acelerado magnetismo, a urgência do pedido dirige-se para a password da internet. E depois é vê-los ali, cada um abandonado à sorte da sua cadeira, compenetradíssimos em ocorrências longínquas, absolutamente alheios um ao outro, virtualmente vagamundeando. Daí a pouco, antes de jantar, fotografarão o prato gourmet cuja imagem oferecerão ao mundo numa dessas redes. E assim, possuídos pela intensa felicidade do silêncio entre si vão-se, polegarizando furiosamente por aí.

Num outro plano temos a palavra escrita a caminhar cada vez mais para um utensílio de formalidades. Nas organizações em geral é moda inundar as caixas de mensagens de toda a gente, inclusive os que nada têm a ver com a mensagem, só para que o emissor se sinta seguro de que o recetor não negará ter recebido a notícia. Isto é, ao dar conhecimento a toda a comunidade que o cerca o emissor salva a sua pele de eventuais problemas futuros. Não lhe ocorre contudo que também na comunicação o exagero é mau conselheiro gravando-se na sua atitude a fórmula de Pedro e o Lobo: um dia quando a mensagem for efetivamente importante ninguém a lê.

Nesta dança em que a palavra parece ter-se subsumido no silêncio das relações e a frieza da tecnologia constituída da quintessência existencial, vão surgindo aqui e ali focos de reuniões entre pessoas cuja finalidade baseia-se no mais simples dos objetivos: usar a palavra para provocar a consciência coletiva e emular pensamento com vista a encontrar soluções. Tal vem ocorrendo em Guimarães com os “Colóquios para a Cidade”, organizado por um grupo de cidadãos mas também em Braga com a “Nova Ágora” organizado pela Arquidiocese local.

No início de Março a “Nova Ágora” organizou um debate com Laborinho Lúcio, António Guterres e Marçal Grilo. O tema centrou-se em “Olhares sobre a Educação”. Cerca de um milhar de pessoas assistiu a tal debate. Ali era a palavra, eram as ideias, era conhecimento partilhado em sistema aberto porque também pronto a escutar. Para além de ter sido um quadro esclarecedor – e também estarrecedor – sobre o atual estado do ensino e da educação, foi também a prova de que em Portugal há quem pense, quem saiba explicar o que pensa, saiba diagnosticar o mal e, hélas, tenha ideias muito claras sobre os problemas e as mudanças necessárias para se intervir no quadro da uma educação decente, quiçá, o maior problema de Portugal. Não sendo a mais importante revelação ali tratada, explicou António Guterres que, em 1995, nas vésperas de ser primeiro-ministro, entendia que agir sobre a educação devia constituir o grande desígnio de Portugal. Mandado fazer um estudo sobre as prioridades portuguesas, estes colocaram a educação em quarto lugar, atrás da habitação, o emprego e a saúde. Nesta eloquente hierarquia do primado das políticas os portugueses, estes não se dão conta de que todos os seus anseios são consequência da educação. Mas a educação, ao contrário da saúde, da casa ou do emprego, não é consequência de nada; deriva exclusivamente da vontade humana. Resulta do esforço e da abnegação. Só ela transforma e inscreve mudança no corpo e na mente. E a toda a transformação começa com a palavra.

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