A VIDA POSTA EM PRÉMIOS

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Estamos a falar de indivíduos que, outrora, praticamente ainda crianças, engrossaram as fábricas têxteis onde entregaram as suas vidas dando-se a “fabrilização” dos corpos e das mentes.

1.

Desde há uns anos que o autor desta crónica está constituído num homem de sorte. É rara a semana em que o telefone não toca a anunciar mais um prémio ganho, mais uma estima divina, que é como quem diz mais uma intervenção de Moros, essa divindade de todas as graças e dos bons fados. A fórmula é quase sempre a mesma: toca o telefone e sai-nos uma alegria de voz, um encantamento de palavras largadas em tom primaveril, sempre envoltas num quase-sorriso, expressas numa quase-felicidade, denunciando uma quase-confiança entre quem fala e quem escuta. A conversa é coisa de gente amiga, quase íntima; um tu-cá-tu-lá de gente habitual.

Começa sempre descomprometida. Por exemplo: “ó sr. Jorge, é uma pessoa mesmo de sorte, acaba de ganhar uma estadia na suíte do hotel «Beta»; parabéns, estou mesmo muito feliz por lhe poder transmitir esse prémio! Ai que contente que estou!”. Na verdade, a voz que se apresentara com um nome, havia-me proposto responder a uma pergunta e se a resposta fosse  correta, eu ganharia. Certo? Certo! “Qual é a capital de França?”, perguntou! Marselha!, disse eu num rápido. “Ó sr. Silva, não acertou na resposta mas, olhe, está em maré de sorte porque, pela sua simpatia, vamos oferecer-lhe na mesma a estadia no Hotel Beta, aceita?” Claro que aceito! “Ah, ainda bem! Olhe, para receber o prémio tem de vir acompanhado pela esposa…” Mas eu não tenho, minto! “Ah, sabe estes prémios são para casais, sendo assim não lho podemos atribuir”. E antes que pudesse responder já a chamada se fora… Um caso de sorte atribuída mas lamentavelmente perdida por incompetência social.

Um outro tipo de sortilégio prende-se com os descontos. Esta benesse tem uma vertente coletiva uma vez que chega a todos, sem distinção de classe, berço ou fortuna. O desconto tornou-se num modo de vida. É uma ideologia das práticas: tem desconto compra-se, não tem desconto não se compra. Portanto compra-se o desconto e não o bem associado. Aliás, não se compra: na novilíngua, consome-se. O consumidor atual consome descontos numa desenfreada comunicação de reduções, baixas, “rebajas” (assim mesmo, em castelhano), promoções. As primeiras, as segundas, as terceiras. De 20%, 50% e 70% no final. Há lojas que marcam os preços de início de coleção já com descontos de 30 ou 40%. Isso o que quer dizer? Que para o vendedor, o preço injusto lhe garante uma maior atração do que o preço justo. Ora, este paradoxo só pode ter uma explicação: há uma psicologia coletiva que eleva o desconto a coisa superior constituindo-se na métrica da (in)justiça ao preço.

O expoente máximo do desconto é, atualmente, o cartão dos super e hipermercados: comprar um bem por 100 euros e ficar com 50 no cartão é infinitamente melhor do que comprar o mesmo bem por 50 e não ter cartão. “Acumulou no cartão 50 euros”. E a dádiva faz-se a felicidade do consumidor. Poucos se dão conta que a pergunta “tem cartão?” decorre da perversidade a que chegaram certas organizações.

2.

Na edição de 16 de fevereiro do jornal «Mais Guimarães» leio a reportagem “Retratos de um Bairro Pobre” de Catarina Castro Abreu sobre o Bairro da Emboladoura. É uma bênção voltar a ver textos sobre a realidade vimaranense para além das notícias que nos mostram a espuma dos dias e nos distraem do turvo das profundezas. É a esperança do regresso da função escrutinadora do jornalismo, lamentavelmente desaparecido na submissão aos “donos disto tudo” e aos discursos do “senhor presidente”, submerso numa híbrida escola de citações “alegadamente” neutral! Nesse texto, através das condições de vida dos moradores, aborda-se, entre outros, um problema criado pelos neoliberais que, no mais puro desconhecimento da realidade e no mais ignóbil lavar de mãos, quiseram submeter pessoas humildes aos ditames do mercado, impondo-lhes custos de arrendamento incomportáveis para as reformas do que ali vivem. Ora, de que tipo de pessoas estamos a falar? De indivíduos que, outrora, praticamente ainda crianças, engrossaram as fábricas têxteis onde entregaram as suas vidas dando-se a “fabrilização” dos corpos e das mentes. De forma invisível e nunca creditada, os “fabrilizados” ajudaram a construir a riqueza da região fazendo parte de um processo de inexistência redistributiva.

Não tiveram escola nem os pais foram obrigados a dá-la. Não tiveram formação ao longo da vida porque disso não se falava. Não cresceram perante uma alimentação saudável porque ter a barriga cheia configurava o necessário. Não almejavam futuro porque só lhes era dado o presente. Na reportagem de Catarina Abreu, os “fabrilizados” do Vale do Ave corporizados nos moradores da original Urbanização da Emboladoura (mudado para o termo desnivelado Bairro), percebem-se como os cidadãos ultrajados pela guarda legal a que todo o cidadão espera do seu Estado. Os “fabrilizados” não têm para onde ir e não têm onde ficar. Por respeito aos animais, diremos que estão transformados em quase-cidadãos. É uma vergonha. Mas a vergonha não está em quem é pobre, porque já sem espírito. Está em quem é rico de espírito e assobia para o ar, dando assim o que imagina ser um prémio a quem deu a sua vida a sugar como lha pediram.

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