AS ESTRUTURAS DESONRADAS DAS NOTAS ESCOLARES

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Honra e vergonha são formas substitutas e irreconciliáveis. Uma e outra não se ajustam. São polos contrários. Repelem-se. Nunca habitam o mesmo corpo em simultâneo. A declaração “não tens vergonha na cara” inscreve a desonra no corpo do indivíduo. Mas, sejamos humanamente justos: na plasticidade dos atos, honra e vergonha podem ocorrer a partir dos efeitos exteriores aos atos que lhes dão origem. Um exemplo concreto: o merceeiro que, envergonhado, se suicidava perante a descoberta da falência não existe hoje na exata medida em que, atualmente, o indivíduo está submetido aos ditames das imprescritas e, literalmente, (in)variáveis leis da economia, uma exterioridade absoluta. Aprendida a lição secular quem hoje se suicida muitas vezes é a economia e não os agentes que dela se servem sem dela se sentirem construtores. Trata-se de um caso em que a honra ficou com o sujeito e a vergonha se apegou na economia. Como um indivíduo é alguém em concreto e a economia um conjunto em abstrato, nesta indelével transição, dá-se uma separação do binómio para nos prostramos num campo de exclusividades segundo o qual a honra ficou para o concreto e a vergonha se dilui no abstrato. É assim que, por exemplo, na atual crise da banca, nenhum banqueiro foi preso e toda a economia, como uma abstração, ficou com a vergonha inscrita em si. E só não vai presa porque abstrata…

Dito de outra forma, a honra é atualmente coisa do domínio individual e a vergonha coisa do domínio coletivo. Tal é facilmente verificável, por exemplo, junto dos professores e tem na expressão prática da atribuição de notas finais aos alunos o “seu momento”. A nota é a forma quantificada de estratificação da qualidade dos alunos. É a sentença traçada na aprendizagem colhida durante um ano letivo. Enunciado pela simplificação posta em circulação, boas colheitas dão bons alunos, más colheitas dão maus alunos. Nesta metáfora, concebida segundo os preceitos da malha mental compete ao aluno ser bom, razoável ou mau. Mas, se é só ao aluno a quem está acometida a obrigação de ser competente e a quem é colocada a responsabilidade pelo fracasso, como interpretar o papel dos professores na nota de um aluno?

Qualquer professor tem na atribuição dos resultados da aprendizagem um momento celestial traduzido num duplo componente de realização pessoal: para além do aluno, a nota configura também, e em simultâneo, a autoavaliação da sua honra profissional. O facto de nunca perder a consciência que o seu ato fará parte menos do passado e mais do destino do aluno, introduz um componente de prudência invisível nas ponderações obrigatórias mas, tácita e absolutamente, constituída como o ingrediente fundamental no tempero da avaliação justa. A prudência interliga a exigência do professor para com o aluno com a exigência do professor consigo mesmo. Noutros tempos designava-se esta viagem interior como a introspeção do professor. A premissa continua válida e serve para diferenciar o mestre competente do professor incompetente.

É nesta dicotomia feitora da realidade que reside um problema: pelas vicissitudes do sistema de ensino público o aluno está forçado a ter alguns professores incompetentes como pedagogos. Esta contradição de termos persiste porque o corpo profissional do professorado não aceita a introdução de um sistema de avaliação pelos pares, assim impondo a coabitação, diluindo competentes e incompetentes entre si. A mistura entre os que honram e os que desonram tem no corpo profissional dos professores o efeito do enunciado pela conhecida lei de Gresham: “a má moeda tende a expulsar a boa moeda” que é o mesmo que dizer “bons professores são subsumidos pelos maus professores vergonhosos”.

Tal acontece porque o corpo profissional está disposto a manter uma certa discricionariedade de processos assim julgando reservar um poder para uso em casos particulares. Esta realidade pode ser notada na predisposição da introdução de um superlativo de nota ao aluno filho do colega professor – ato que institui a dádiva e forma a dívida a ser paga pelo colega -, na proteção e manipulação das notas aos filhos do pessoal discente – ato demonstrativo do poder -, na penalização do aluno com capacidade crítica em relação ao professor – penalização pelo atrevimento de se pensar além da matéria dada –, na melhor nota dada ao aluno cujo encarregado de educação tem muito tempo para reuniões – ato que entrelaça e reforça laços entre as partes -, no reconhecimento dos nomes família na formação das turmas – ato que promove a separação, evita o conspurcar do distinto pelo humilde e reproduz o mundo na sua forma desigual.

A diluição prática entre honra e vergonha dá-se, a título de exemplo, na falta de funcionamento crítico e objetivo claramente definido do órgão denominado Conselho de Turma na vertente separadora dos limites de inaptidão permitidos no corpo profissional. Todavia a norma perante evidências irrefutáveis é a do corpo profissional decidir-se por defender e proteger o colega que lhes fere a honra. Contudo, o que se mascara de decisão do Conselho de Turma é, na realidade, uma simulação com sentidos divergentes manifesto no sentido diferenciador do voto dos pares: os competentes usam-no para se demitirem da questão afirmando interiormente “não é nada comigo” enquanto os ineptos sentem-no como um ato de compreensão e por um acolhido “todos me dão razão”. E assim segue a farsa.

O que dá esta sentença: o funcionamento das instituições escolares no que diz respeito às avaliações está impregnada de formas precisas e determinadas de promoção de desigualdades. Tudo é feito de forma consciente em que a honra se revela apenas na aparência e a vergonha se esconde nas profundezas. O corpo profissional de professores é o primeiro a promover estas desigualdades quando o seu papel devia ser exatamente o contrário: desnivelar as desigualdades. Como solução só resta aos pais manterem atenção e atitude crítica em relação às escolas. Como se fora um manifesto.

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