DEPUTADO DO CÍRCULO UNINOMINAL

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Desafortunadamente, passados 41 anos da nossa grande mudança coletiva, outras mudanças que se deviam seguir mantêm-se submersas na intensa neblina dos dias e, cada vez mais, atiradas para as profundezas do esquecimento. E como seria, mais uma vez, “um dia inteiro e limpo”, caso o nosso sistema de representação nacional mudasse. Como seria tudo tão diferente! É certo que estamos a falar de uma grande alteração constitucional, praticamente de uma revolução mas, a criação de círculos uninominais constituiria em si, para estes nosso dias próximos do obscurantismo, a mudança necessária e a vitória clara do povo em busca da responsabilidade política.

Quem é o meu deputado? Quem é o teu deputado? Quem é a pessoa que, imbuída de autoridade do voto, te deve a eleição e se constituiu no teu/meu/nosso representante na Assembleia da Republica? Aquele a que te dirigirás diretamente, e exigirás empenho e resolução, num qualquer caso que entrevejas alguma ofensa aos teus direitos de cidadania pelo cada vez mais omnipotente e musculado Estado? A resposta é: não temos um rosto, uma cara, um discurso, uma proposta que se tenha feito eleger por nossa conta.

E, todavia, a inexistência dessa pessoa carregada com a responsabilidade específica de uma comunidade, é tão má para os atuais deputados eleitos como é má para os eleitores cuja representação é subsumida na totalidade das 230 pessoas eleitas. Quando está em discussão um qualquer assunto que diga exclusivo respeito a Freixo de Espada a Cinta, aceita-se como óbvio que o conhecimento, o interesse, o empenho e a procura de soluções para o problema convocam a mesma determinação do deputado eleito por Faro que o deputado eleito por Bragança. Ora, tal é manifestamente continuar a aceitar que uma abstração persista e insistir na fórmula é, mais uma vez, cair no medo de existir do Portugal de hoje de que falava José Gil: vemos o mal mas não agimos.

Vale assim perguntar para quando a criação de círculos eleitorais uninominais que possam dar rosto e missão diferenciada ao deputado eleito. Depois de levados ao estado de pré-falência, era suposto que tal discussão se desse atualmente. Até porque quando se descobre que tudo correu mal é certo estarmos no melhor tempo para a mudança. E, valha a verdade, António José Seguro quando líder do Partido Socialista chegou a apresentar um projeto para a criação de dois círculos – um nacional e um uninominal- que resolveria o problema mas, atualmente, com o regresso do PS às suas linhas mais conservadoras, lamentavelmente, esboroou-se a proposta sem que uma outra semelhante tivesse aparecido.

Enquanto não se vislumbra esta mudança necessária para se dar forma e conteúdo à tão propalada aproximação entre eleitores e eleitos, descortina-se a putativa aproximação pela praxis dos eleitos. Um dos casos que constitui um manifesto exemplo é o de Miguel Larangeiro, deputado do PS eleito pelo círculo de Braga, cuja forma de agir está ligada a intrínseca interpretação do cargo. Expliquemos: nas eleições de 1991 era Larangeiro jornalista na Rádio Fundação. Incumbido de entrevistar os candidatos cujas cabeças de lista eram (e são hoje também) geralmente provindos de Lisboa, deu-se conta do hábito da imprensa local em questionar esses indivíduos sobre temas nacionais. E recusando-se, elencou uma série de questões regionais a que, entendia, os candidatos tinham obrigação de saber dar resposta. E assim, o Sistema de Despoluição do Ave, as configurações das vias de comunicação, os investimentos estatais na região, o aumento das transferências para as Câmaras Municipais, os têxteis, a formação profissional, et cætera passaram a ser temas dominantes, o que impunha uma obrigatória preparação dos candidatos. Curiosamente é esta atitude que levará Arons de Carvalho a convidá-lo, logo a seguir, para a equipa de António Guterres.

Deputado desde 2005, Miguel Larangeiro continua num admirável vaivém de-cá-para-lá e de-lá-para-cá. Cada semana consegue reunir com empresários, associações, escolas, clubes e pessoas individualmente, não só tomando nota e conhecimento dos anseios, das necessidades, dos projetos como agindo sobre eles. Mantém a sua condição de deputado municipal a que, não faltando, ainda acrescenta intervenções pertinentes. Em Lisboa perscruta oportunidades, colhe informações, insinua a terra como palco de realizações. A par mantém uma intensa atividade na imprensa, sendo, provavelmente, um dos deputados a quem as televisões mais vezes recorrem para ajudar a discernir os acontecimentos nacionais.

Neste particular o trabalho de Larangeiro não tem referente literário. Ele afigura-se a antítese de Calisto Elói de Silos e Benavides de Barbuda, morgado de Agra de Freiras, essa figura mítica criada por Camilo Castelo Branco em 1865 que, indo angelical, austero e límpido da província, se vicia no luxo e prazer da capital. O que Larangeiro faz na prática é o papel do deputado que respeita o seu círculo, dele não se desliga e dele faz o seu programa. Não havendo um círculo uninominal, constitui-se no ideal-tipo da proximidade entre o deputado da nação e a atenção das coisas da terra. Comparado com outros deputados em exercício há uma abissal diferença. Oxalá se mantenha!

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