GATO EM TELHADO DE ZINDO MORNO

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

A expressão do amor tem mudado de pêlo. Cada vez mais se nos depara o quadro da pessoa afagando o cão minúsculo ou o gato «fofinho» mostrando em público os seus dotes de indivíduo sensível. O gesto é geralmente produzido por forma a deixar transparecer um sentimento exclusivo de carinho que só as pessoas hipersensíveis possuem. Sim, porque das vezes que este cronista questionou alguém sobre o significado de tanto amor canino e siamês paixão, recebeu em troca uma declaração em forma de sentença: se não percebes é porque não gostas de animais. O que, diga-se, excluindo os gatos, não corresponde à verdade. Este escrevedor foi educado em território de elefantes, pacassas, veados, gibóias, palancas e por aí adiante. Mas, como toda a gente aprendeu por essas geografias, os animais têm o seu lugar. Mas os animais domésticos são outra coisa, afirmam. Será verdade? É possível domesticar tigres, leões, gorilas, macacos e por aí adiante, dizem. Será?

Ama-se tanto os animais domésticos em Portugal que por vezes até apetece tomar-lhes o lugar e receber essa benesse de prazer sobre nós. Nota-se um tão avançado estado de civilização humana com o animal que corremos riscos de, um destes dias, chegada a velhice, serem os animais a tomarem conta dos humanos.  Encontrar hoje pessoas a falar com a «bichinha», anda cá, ai que linda ai que linda, ela faz tudo o que eu digo, está a tornar-se num hilariante clássico. Há, inclusive, uma contradição de termos na linguagem corporal: enquanto os animais se movem em altiva pose, os amantes correm atrás encolhendo e agachando o corpo. O etólogo Konrad Lonrenz identificou-lhes o «imprinting» (ou cunhagem), processo de aprendizagem realizado logo nos primeiros momento de vida. A sensibilidade civilizada atribui-lhes uma inteligência pré-racionalizada. Quem invejou Mickey Rourke passando a mão por Kim Basinger com o corpo desta em estado aquecido a tal ao ponto de ali se poder estrelar um ovo, jamais poderia imaginar o moçoilo afagando um chihuahua como que viajando pelas nuvens. Mas é assim a vida atual; à frente o animal! Siga a marcha.      

Terça-feira, 22 de setembro, início da tarde em Guimarães. Junto à Alameda presenciou-se o seguinte cenário: dois polídicas municipais guardam um lugar de estacionamento anunciando que daí a pouco seria ocupado pelos bombeiros. Ao lado um popular bradava para o ar: “vê lá… olha que cais! Sai daí! Segura-te! Vem aí ajuda”. Lá em cima, na berma do telhado, ameaçando cair a todo o momento, um gato preto miava com a competência do miar de todos os  gatos. Uns vinte minutos depois uma multidão via chegar uma escada de incêndio. Aguarda gato que chegou a salvação! Tadinho… Como é que foi ali parar o bichinho, vejam lá, tão alto, no telhado, ai valha-nos Deus! Suspenso o trânsito, acumulda a multidão, acelerados os batimentos cardíacos, colocadas as emoções à flor da pele, a escada Magirus começou a subir. E, como por milagre, logo que tal aconteceu, o gato calou-se, fitou o cenário, levantou-se e, patas ante patas, desapareceu dos olhares submerso nas brumas do vermelho das telhas. E as gentes sensíveis ali presentes logo desataram em afirmações: ai o malandro, estava a fazer-se! Vejam lá o esperto a gozar connosco! E nós aqui quase com o coração de fora! Não se pode confiar em ninguém, muito menos num gato.

Mas todo o cenário aqui contado, coisa realmente acontecida, é uma moda muito presente nas redes sociais e que, através da comiseração, parece dispor bem quem realiza um ato de salvação animal. A métrica do que é ser um bom ser humano obtem-se numa escala de boas virtudes cuja intensidade sobe aceleradamente se o objeto da bondade for um animal. Por vezes um tigre come uma mulher ou um leão decepa um braço de um turista que, na expressão da bondade, se esqueceram do óbvio selvagem que ali estava. Mas, nas notícias o tom é dado como se o tigre e o leão fossem uns mal agradecidos. Tanta bondade irreconhecida.

Os censos não contam animas mas a Marktest afirma que 62% dos lares em Portugal têm animais domésticos. Atualmente os produtos para animais ocupam áreas de dimensão praticamente identicos à de puericultura. Faz sentido. Em geografias civilizadas o número de afirmações dos que morrem de amores por animais é muito superior às afirmações dos que estão dispostos a morrer de amor pelas pessoas. O caso dos refugiados do médio oriente entrando na europa é paradigmático: não há europeu que não tenha opinião sobre esses desgraçados. Para uma grande parte essas pessoas não são bem vindas. Porquê? Porque vêm à procura do nosso bem-bom, só nosso e de mais ninguém e que não estamos dispostos a partilhar. Ademais, reforçam não temos dinheiro para as manter. Absurdo por absurdo, é como se partissem do principio que um gato ou uma cão trabalham muito para se manter.

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