NOTAS SOBRE PORTO ALEGRE

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Atravessei o Equador em direção ao sul e onze horas depois saltei de estação. E de estado também. Este ano fiquei sem outono. Perdi os dias serenados entre os tons que anunciam a renovação. Escapuliu-me a leveza do sol morno acariciando a pele e o mirar das folhas acastanhadas suspensas na fragilidade. Onze horas de voo depois estava no hemisfério sul tentando compreender os fluxos de uma cidade onde residem cerca de um milhão e meio de pessoas. Viajar atualmente, mesmo para uma geografia desconhecida, é acompanhada por noção de dejá vu, tantas são as vezes que espreitamos a cidade através do satélite. Sobre avenidas, praças, ruas, percursos, parece que nada nos escapa. Mas o inerte nada nos conta. É preciso ouvir os sons, ver os fluxos da cidades, perceber as suas lógicas, compreender as suas rotinas, expressões que decorrem da atividade humana, para verdadeiramente sentirmos o pulso citadino.

Também é preciso ter sorte. E no caso coube-me como parceira de viagem Birgit Braatz, nascida alemã mas tornada porto-alegrense por casamento com um brasileiro. Falo-lhe da Alemanha e da riqueza dos seus intelectuais e do meu projeto sobre Max Weber. Lamento não compreender alemão. Birgit surpreende-se. Ela não só é filóloga como leciona no Instituto Goethe e, por isso, compreende perfeitamente a minha questão. Explica-me que, talvez a riqueza intelectual alemã resulte da noção precisa da língua, e do facto de essa precisão decorrer da responsabilidade colocada na formulação pelo emissor, obrigando-o a facilitar a compreensão pelo recetor. Mas aproveita para me dar a conhecer aspetos que não devo descurar em Porto Alegre: a segurança! Todo o cuidado, afirma, é pouco.

Constatarei mais tarde que estamos perante um fenómeno transversal à cidade. Não há um prédio que não esteja envolto numa grade que o enjaula. Em áreas mais ricas, a vedação é terminada com eletrificação. No perímetro circundante de cada edifício há câmaras filmando permanentemente. Há sempre um porteiro e, em certas situações, seguranças armados complementam o quadro. Estou avisado de que não devo atender “celular” na rua e, se puder, não devo andar de sacola. No meio de tudo isto ando todavia confuso porque não vi um único polícia na rua. Nem um para a amostra. E, andando pela cidade a pé, em autocarros e táxis, ainda não vi nenhuma situação de perigo. Contei a minha estranheza a gente que me “enturmou” e todos são unânimes: Porto Alegre tem muito bandido e é preciso muito cuidado.

Acontece que não consigo deixar que o receio me domine. Tenho-me esforçado mas ao caminhar na rua a envolvente é mais forte e distrai-me da preocupação. A minha tentativa de instalar medo em mim frustra-me. É uma indisciplina mental, um luxo a que não me posso dar. Referi isso ao Luiz e à Camila, amigos de Porto Alegre que estiveram na Universidade do Minho. Contam-me que nos primeiros tempos que residiram em Braga tinham grandes dificuldades em aceitar a serenidade que viam. Desconfiavam. Demorou tempo até que aprenderam que não é preciso andar na rua com o saco colado ao corpo e a espreitar por cima do ombro. Felizmente habituaram-se a caminhar na rua seguros e certos de que nada iria estragar a sua paz.

Creio que é isso que está acontecer comigo mas pela inversa. Estou em lento processo de aprendizagem do medo mas revelo alguma incompetência na aprendizagem. É provável que nos próximos tempos eu seja assaltado e, aí sim, passe a saber como viver.

Do que não consigo livrar-me é da tentativa de compreensão do fenómeno. O melhor exemplo de ausência de medo está descrito por John Stuart Mill na formulação da liberdade individual como modo de existir, algo que cessa na fronteira com a organização comum. É algo tão naturalizado em Inglaterra ao ponto da polícia não precisar de armas. Mas não me escapa as lições de Michel Foucault no entendimento da liberdade ajustada à noção de microfísica na qual, um poder disciplinar, em vez de destruir, fabrica e molda o indivíduo com a introdução de um saber que, sem este perceber, o anula. É assim provável que o medo se tenha constituído como uma microfísica em Porto Alegre. Em vez de se combater esse medo agindo contra ele, usa-se o mesmo medo na sua qualidade menos onerosa para manter o indivíduo preocupado e confinado.

A outra solução seria agir contra “os bandidos”, monitorizando-os e intervencionando as zonas pobres que os produzem, o que custaria muito dinheiro. Numa viagem de “ônibus” escutei a conversa de duas jovens do secundário. Uma explicava como o negócio de um familiar ficara atrativo porque o “edifício não tinha grades na frente”. Mas, perante um assalto realizado pelo telhado, a beleza irá desparecer porque “agora vai ter grade”. Percebi: mesmo ainda não estando possuído, caminho para, brevemente, ser habitado pelo medo de Porto Alegre.

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