O ESTADO “PUSH UP” DOS SEIOS E DOS RABOS

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Escrevo este texto um dia após o black friday, mais uma introdução estrangeira na vida portuguesa. Como quase todos os hábitos americanos, também este forma um quadro de apelo ao consumo a que, pelos vistos, quem não acede é démodé. A cultura-mundo, síntese de Gilles Lipovetsky para o fenómeno da economia global e deslugarizada, faz o seu caminho em processo acelerado ou mesmo hiperacelerado. É neste quadro de vida normalizada que acedi ao telefonema da loja Massimo Dutti em aí me deslocar para poder comprar uns descontos. Sim, digo comprar descontos, porque atualmente já não adquirimos o bem pela sua necessidade mas pelo valor do que lhe é retirado no preço. Desafortunadamente enganei-me no dia e apareci na loja no dia seguinte ao black friday. Um manifesto falhanço que me leva a adiar a compra de algumas roupas para o período de descontos. É isso mesmo que explico ao diligente funcionário que, desde há uns anos, tem a amabilidade de me avisar destas coisas das baixas dos preços.

Ficámos a conhecer-nos quando há uns anos lhe disse que as marcas tinham eliminado a noção de preço justo. E como o fizeram? Alterando o preço ao longo ao tempo de duração de exposição do produto. O preço é alto com a novidade e, a certa altura, gradualmente, vai diminuído. Primeiro há uma redução para os clientes “fidelizados” – o comércio apela à fidelização sabendo que se é fiel a muitos –, depois vêm as promoções sob variadas formas – compre um, leve dois pagando o preço do mais caro –, várias reduções aos preço e, finalmente, quando já só restam os “monos” da época, entra-se em saldos. Neste percurso hierárquico do artigo, o preço vai-se negativamente ajustando com o tempo criando a ilusão de dádiva ao comprador. O senso comum sintetiza bem estas coisas: estão a dar descontos.

Em simultâneo, os produtos mudam acelerada e radicalmente, o que convoca uma espécie de esquizofrenia com reflexos em todo o corpo do indivíduo. O que se usa largo numa estação do ano passa a estreito seis meses depois. Ainda se está a despir o justo ao corpo e já se anuncia o substituto a ondular. A florear a pele. Agora são mais malhas. Logo após há de ser organzas. Deve haver um momento tafetá. Já houve terylene, acho. Sarja é certo que há. Pode ser com “strech”, uma espécie de licra. Com elástico é que giro! Sem elástico é mais clássico. De repente a estranha combinação de preto com castanho “fica bem” e ninguém consegue explicar o que mudou para que, repentinamente, o gosto se tenha alterado. As expressões “usa-se agora” e “já não se usa” andam a par mas o autor, ou autores, da decisão do gosto de cada um ninguém conhece. É anónimo. É a moda, estúpido.

Houve tempos em que umas calças de ganga eram umas calças de ganga. Agora não. Calças de ganga podem ser “slim fit”, “normal fit”, “regular fit”, de cintura baixa, de cinta alta, direitas, “skinny”, “flare”, “boyfriend”, “reta”, “jegging” e “pantalona”, tudo para que qualquer coisa se evidencie ou se esconda; ora a coxa, ora a cintura, ora as pernas, ora a magreza, ora a gordura, ora a formosura. A roupa serve agora não só para vestir como também para “corrigir” a pessoa dos seus desvarios físicos naturais. O caso dos soutiens “push-up” é assaz interessante porque transforma os seios de uma mulher a cada momento: o mais pequeno engrandece até à mais superlativa mama. Às vezes duplica-as. São mamas que esbugalham olhos. Estamos perante um tipo de artefacto que, manifestamente, transforma as glândulas mamárias numa bomba sexual. O que por vezes, diga-se, promove um susto antecipado não vá a mama explodir de repente.

Não há que ter medo das palavras: a tecnologia “push-up” veio para terminar com a dicotómica filosófica “ser” e “parecer”. O caso mais extraordinário são as calças com o rabo “push up”. Afirma-se que toda a mulher com uma dessas calças torna-se numa fêmea de rabo realizado. Faz sentido. Olhando as mulheres de Paris, o italiano Mário Perniola entreviu o “sex appeal do inorgânico” na figuração dos vestidos, expressão que atribui o fundamental às formas e relega o corpo para a condição supérflua. Perante a beleza do vestido corpo de nada serve.

O comércio atual é quase uma ciência. A incidência das luzes, o cheiro do espaço, a disposição dos artigos, os espelhos adelgaçadores do corpo, a ausência de relógios marcando o tempo, tudo é pensado com o objetivo de manipular os sentidos. O sociólogo Albertino Gonçalves afirma que “é sempre primavera” nestes espaços. É a estação de permanente florescimento. Ora, cabe hoje ao comércio levar as pessoas a florescer. Pode-se bem dizer que algumas florescem em estado “push up” quando ali entram. É felicidade engrandecida.

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