TUDO ARDE QUANDO O HUMANO DESAPARECE

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

“Quantas vezes se avariará o teu túnel de congelação?” perguntou-me, há uns anos, um alemão com quem estabelecia um contrato. “Não sei”, respondi. O seu ar de espanto pela minha declaração deixou-me inquieto. “Não saber é mau!”, advertiu- me entre dentes. Tinha razão. Pouco tempo depois a empresa perdeu o contrato de produção de fricadelles. Culpa da máquina que se avariava quando queria.

A maior parte das atividades existentes em Portugal resulta da esperança no resultado positivo sem a devida atenção, durante a fase processual e operativa, da alta probabilidade de insucesso. Pensa-se sempre que a máquina funcionará e o problema só o é quando avaria se dá. Deveras o problema devia ser afrontado antes de acontecer e assim não se traduzir em consequências negativas. As raras organizações que se consciencializam desta questão dedicam uma grande atenção à antecipação das crises. As companhias de aviação são o grande exemplo, alias, que seria dos seus aviões e de nós se assim não fosse?

Esta questão é aqui trazida por causa dos incêndios que desflorescem por aí. Os incêndios são presença assídua em Portugal. São um desespero. Uma calamidade. Uma tragédia. Têm época. Engrossam telejornais. Exauram bombeiros. Consomem água. Delapidam florestas. Borralham terras. É muito prejuízo para um ato só! Quem é ou quem são os responsáveis? Os media criaram um culpado abstrato a que não se queixam de simbolizar num ou outro exemplo esporádico. Os incendiários são contudo uma grande criação de um inimigo imaginário que tem como objetivo dar uma explicação ao coletivo. Por vezes lá aparece um mas, manifestamente, como explicar que “a época de incêndios” seja correlativa com as altas temperaturas? Os pirómanos seriam então os únicos a ir de férias quando o tempo é mau.

O outro culpado é atribuído ao facto de estarmos perante “um negócio que interessa a muitos”. Inexistindo estudos, trata-se de uma óbvia especulação. Aliás, como outras especulações, sempre à procura da justificação exterior e que está patente na afirmação “a culpa é dos eucaliptos”; uma boutade que se esquece para tudo arder, basta haver fogo.

Já é tempo de se perceber que a solução dos incêndios não reside na agulheta do bombeiro. Incêndios atacam-se nas causas e não nas consequências. E, agindo sobre as causas, agia-se também sobre aquele facto que poucos falam: a maior parte dos terrenos ardem porque de lá desapareceu o elemento humano, principal artífice do ordenamento do território. Uma geografia pirómana em que a monda substitui a gente que lá devia estar.

É, por isso, do (des)ordenamento do território que se fala. Trata-se, antes de mais, da intervenção ativa no processo desertificador, um dos temas que a política vai simulando não constituir um problema. Como não se imaginam os portugueses que vieram em direção ao mar, regressar para o interior, a única solução será, mais tarde ou mais cedo, encarada pela via do tipo de imigração a incentivar em Portugal. Obviamente aqueles que estejam dispostos a receber terras em cinza e a transformá- las em pastos verdes.

Lamentavelmente, os responsáveis políticos continuam a entreter-nos. A desapropriação de terras abandonadas, ideia avançada pela ministra Constança Urbano de Sousa, pode ser uma boa ideia mas, questiona-se a eficácia da sua entrega às autarquias. Em que medida as autarquias iriam debelar incêndios apenas porque passariam a deter a posse de mais área territorial? E tal é tão mais questionável quando se verifica que a maior parte das áreas não tratadas são exatamente propriedade das autarquias. “Os incêndios são presença assídua em Portugal. São um desespero. Uma calamidade. Uma tragédia. Têm época. Engrossam telejornais. Exauram bombeiros. Consomem água. Delapidam florestas. Borralham terras”.

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