A GENUÍNA MAGIA DO MEU NATAL DOS AFETOS

por Mário Moreira

A genuína magia do meu natal dos afetos

A liderança na voz doce da mãe Conceição, a protetora presença do pai Francisco, a inquietude dos meus irmãos, o crepitar das brasas, os cheiros das especiarias, o cheiro a fumo, o candieiro a petróleo desenhava nas paredes as sombras das nossas cabeças, o vento frio por baixo da porta, as paredes nuas, cinzentas, frias, os buracos no teto por onde entravam as osgas, sem pedir licença… Uma vez no ano, a mesa, era colocada de modo formal a preceito, uma casa humilde de escassos recursos, nem os pedidos ao pai natal, por mais modestos, eram atendidos…”filhos dos homens que nunca foram meninos”.

Momentos de enormes sacrifícios mas especiais. Alegria, confraternização entre-ajuda, partilha, bondade genuina, caracteristicas de grandeza, de puro humanismo, verdadeiro hino à vida. A pobre mesa, estava prazerosa, farta e rica, até aos “reis”. Entre vizinhos, entrávamos na casa de cada um, sem bater à porta, disputávamos o que de melhor, os olhos, o olfato, o palato, nos seduzia.

Gestos inapagáveis de amor, generosidade,  ultrapassavam dificuldades de penúria e pobreza.

Os cheiros, as texturas, os sabores, uma simples garfada no mais modesto prato, sinais que me faz voltar à infância, cenário genuíno e único de múltiplas sensações, repleta de memórias e momentos inesquecíveis. Os afetos, a comida de conforto, tinham magia e um poder, absolutamente, singulares.

Meus pais, de qualidades humanas extraórdinárias, transformavam as dificulades com coragem e alegria, coerência e honestidade, num esforço titânico, para manter a dignidade à familia. Essa, é a verdadeira magia, magia do sentimento de temos pelos outros sem sabor de interesses.

Hoje, a esquizófrenia humana nem tempo tem de se cumprimentar, a coerência muda ao sabor das circunstâncias, as manifestações de interesses, contrariam todos os valores.

Vivemos um mundo de muros; abundância e estrema pobreza; de censura e algemas; de escravos e senhores que roubam, sem justiça; de violência e  guerras, de imperadores que esmagam os povos, o planeta; de crianças que morrem de fome, a cada segundo; velhos entregues à sorte com medo, frio e solidão; jovens sem empregos e sem futuro; até as vozes conciliadoras ignoram os esquecidos, os humilhados, os que vivem de migalhas de rendimentos, sem vida digna.

Sou fiel à minha identidade. Prefiro o meu natal de afetos e humanismo genuino, à fantasia de mãos cheias de nada.

Os meus melhores votos de boas festas.

“Bacalhau com todos”

Coza a couve-portuguesa, as batatas, as cenouras, em água temperada. Os ovos coza-os à parte, tal como o bacalhau. Sirva com azeite aquecido e dentes de alhos esmagados.

Bom apetite.

Um abraço gastronómico.

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