Oferecer um cálice de licor é uma forma delicada de bem receber

por Mário Moreira

Saborear um licor é uma demonstração civilizacional, um verdadeiro ato de partilha fraternal, valores incontornáveis, votados ao silêncio, pelos poderosos que esmagam os mais frágeis, os esquecidos de sempre, todos os dias, através da comunicação dominante. O circo político a que temos estado a assistir nestas eleições de calçadeira, são a prova clara disso mesmo.

Saber preparar um licor é um saber de quem tem a capacidade para ultrapassar os apelos do nosso quotidiano, de quem tem a capacidade de raciocínio crítico ao mundo que o rodeia, a capacidade ao protesto e indignação, sem falsos ingredientes instalados.

As fórmulas dos licores não são secretas, uma vez que têm nas suas raízes os saberes de tradição, e, possuem uma duplicidade gastronómica interessante, de se adaptarem ao gosto de quem os prepara, espevitarem os sentidos de quem os preparou e saboreia.

Uma das caraterísticas para se fazer um bom licor é a capacidade de ser paciente, é necessário saber esperar para que o conjunto de ingredientes da sua composição, ganhe corpo para que os frutos e especiarias se misturem com a aguardente e açúcar ou mel, cumpram a sua função de combinar todos os seus sabores.

Enquanto os Ingleses brindam com cherry, licor de cerejas pretas, nós Portugueses, nunca dizemos não a uma ginjinha, com ou sem elas…Na verdade, será sempre melhor com elas, conferem-se um gosto e encanto inigualável.

A ginjinha trouxe até há bem poucos meses uma dinâmica com história e animação à capital com muitas dezenas de anos. Vendida a copo, este licor tornou-se um ex-libris de Lisboa. As casas que restam vêm mencionadas nos roteiros turísticos, uma delas bem conhecida no largo S. Domingos, com a marca “Espinheira”, fundada em 1840, com diversas medalhas de ouro e diplomas de honra no seu extenso currículo. Nesta emblemática casa alfacinha, encontram-se gravadas nas suas paredes de mármore, os nomes das cidades por onde esteve em exposições internacionais.

Já tive o prazer de lá estar algumas vezes a efetuar dignas contemplações licorosas.

“Licor de Jeropiga”

No dia seguinte à pisa das uvas, retirar 1 l e ½ de mosto. Colocar num pequeno barril de madeira e adicionar ½ l de aguardente. Fechar bem com rolha de cortiça com sebo. Deixar durante três meses. As proporções são de 3 para um. Esta é uma excelente jeropiga que pouco ou nada tem com a que comprámos nas catedrais de consumo.

Bom apetite!

Um abraço gastronómico.

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