PRETO DA GUINÉ LAVA A CARA COM CAFÉ

por ESSER JORGE SILVA
Sociólogo

Sexta-feira, 22 de abril, 13h30. Apanho a filha do meio na Escola João de Meira para almoçarmos. Noto-a diferente. Ao contrário do habitual não sorri quando avança para o carro. Pergunto desinteressadamente se houve teste: não, reponde. Se houve entrega de teste? Também não. Hesito em mais perguntas e olho-a de soslaio. O rosto está abaixado. Na lateral dos olhos percebe-se humidade. Choraste? Sim! Porquê? Uma colega atirou o meu saco de ginástica para o chão e disse que o podia fazer porque eu sou escura! E as tuas colegas o que fizeram? Disseram que concordavam.

E é nessa altura que sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes. Nem soube o que dizer à minha filha. Na verdade apeteceu-me chorar. Nem uma hora passara desde que, na Universidade do Minho conversara com Rosa Cabecinhas sobre o racismo em Portugal. Agora tinha ali uma prova a entrar-me pela carne. E uma amargura interior ocupou-me até que pedi à mãe da filha o favor de agir sobre o caso avisando a Escola do acontecido. É por isso dominado por uma profunda desilusão que empurro as letras este texto.

A filha tem dez anos. Tem duas irmãs. O meu desconforto decorre do sentimento de poder estar a falhar enquanto pai. Nunca preparei as minhas três filhas para situações destas. Devia tê-las preparado? Será que devia ter-lhes dito: “filhas, um dia vai acontecer chamarem-vos pretas e afirmarem que o vosso lugar é outro, portanto preparem-se”. Fará tal coisa sentido? Antecipar que, em algum lugar, num certo momento, lhes apontarão o dedo como alguém negativamente marcado por uma diferença? Ocorre-me pensar se não estaria eu a ser o primeiro racista se assim agisse.

O racismo das crianças é transportado do local onde se dá a primeira socialização: a casa dos seus pais. É nesse ambiente que se cimenta o mais estrutural de cada indivíduo. Alguns dirão que não! Que nunca ensinaram aos filhos nada disso! Pode até ser mas, a verdade é que também não ensinaram que o mundo é diverso, que a cor da pele não dá poder, que o diferente não é inferior nem superior.

Racista é todo aquele que aparta, separa, afasta mental ou declaradamente. Aquele que se enoja ao olhar para o Outro diferente de si. Aquele que se enclausura na sua redoma étnica e se transforma num indígena tribal. Aquele que não está disposto a partilhar, a incorporar, a dar e a receber. Racista é todo aquele que se coloca num estatuto de superioridade cultural e afirma-se pela incompreensão e negação existencial de outras culturas.

Os portugueses em geral adoram afirmar-se não racistas e, provavelmente haverá muita gente que o não é. Mas é preciso afirmar que há um grosso da população, porventura de grossura superlativa, que tem sentimentos racistas. Todavia por saber que tal é social e judicialmente reprovado, afirma-se o contrário. Eles sabem-no mas escondem-no. Por vezes, sem se aperceberem, transmitem-no. Há uns anos uma criança de uns quatro anos olhou-me por cima do ombro da mãe e quando lhe pisquei um olho desatou a cantar: preto da guiné lava a cara com café! Íamos tão próximos que lhe perguntei: foi a tua mãe que te ensinou a cantiga não foi? Só nessa altura a mãe resolveu olhar para trás e, vendo a tez da pessoa que ali estava, desfez-se em desculpas com a sempiterna resposta “não sei onde ele aprende estas coisas”. Pois bem, eu sei: é lá em casa. Dos pais, dos avós, dos familiares próximos.

Resta à escola o papel que, repentinamente, a João de Meira se viu envolvia e que, manifestamente, enfrentou decididamente: ter que agir sobre alunos que não percebem que a sua atitude racista é uma atitude criminosa. E, sem dó, é preciso dizer-lhes isso mesmo. Para que, ao colocarem a cabeça no travesseiro, a consciência lhes toque de rebate e lhes lembre que se não mudam, vão por um caminho idêntico ao de um qualquer criminoso, seja porque mata um semelhante, seja porque furta o que é alheio. É a mesmíssima coisa, sem qualquer dúvida.

Só uma profunda crença cultural de benevolência com os próprios permite a subsistência deste designado não racismo português. Uma das explicações para este credo reside na afirmação de que os portugueses até se miscigenaram promovendo assim novas colorações da epiderme. Como é fácil de ver trata-se de uma efabulação. Eduardo Lourenço explica-a bem quando nos dá conta de que a miscigenação portuguesa só resultou de um facto: os portugueses acharam que África não era merecedora das suas mulheres. Assim como assim, muitos séculos depois, crianças de dez anos da cidade de Guimarães sentem-se superiores com a claridade da cor da pele apartando os mais pigmentados.

No pior dos meus pesadelo tal não me ocorreu possível. São 21h50 do dia 22 de abril de 2016 e uma profunda tristeza ocupa-me o espírito…

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